No mato do medo

Em 2015, viajei para uma cidade europeia, um mês e meio depois de um dos mais graves massacres perpetrados pelo Estado Islâmico na Europa. O mundo havia-se enchido de medo, depois do “Estado do terror” ter mexido com as vidas de todos nós.

Em cada rua, as armas que nos tentavam dar segurança, lembravam-nos quem, ali, às mãos de criminosos, morrera ensanguentado pelo fanatismo religioso. Não sei se tivemos medo, mas tivemos respeito. Chorámos por dentro, a brutalidade da agressão, a gratuitidade e a frieza, o mapeamento do horror, a firmeza de quem planeara matar por matar, de quem agiu em nome de um Deus que não existe.

Se desde as torres gémeas, a ameaça se tornara real, com os atentados no Charlie Hebdo, no Bataclan ou em Bruxelas, o perigo parecia estar mais próximo. E nós, mais alertas. Quiçá, mais sensibilizados.

Acontece que, desde 2017, o Estado Islâmico está instalado no norte de Moçambique. Vencendo pelo terror, já deixou mais de meio milhão de pessoas sem casa, já matou centenas de pessoas e já provocou 700 mil refugiados.

Mas fez mais. Atacou, uma por uma, as aldeias daquela zona do país. Decapitou crianças. Vou repetir: decapitou crianças. Violou mulheres. Queimou casas. Destruiu plantações. 

E as pessoas? Perguntamos. Aquela gente, que não é filha de uma Europa moderna, mas que da sua mão precisa, e que nasceu para a vida com a mesma dignidade que todos nós, vive a se desenvencilhar. Como sempre.

Fogem pelo mato, quando as campainhas tocam. Ao mesmo tempo que os tiros do Daesh. Quando regressam (regressam, a medo, se sobreviverem), renascem no rasto da destruição, entre o que sobra das casas queimadas, dos entes que se foram, dos alimentos roubados, entre o terror e a violência que fica. O que fica quando nos levam até a honra

São mais de três anos.

Desde o primeiro ataque, em outubro de 2017, a célula terá crescido. Ninguém sabe, ninguém se importa. Apenas se prevê o que, de forma simples, aos olhos de todos, é visível - com o passar do tempo, haverá mais mortes, mais fome, mais fugas, mais sangue. Com isso, mais espaços vazios, mais despovoamento, mais oportunidades para o Estado Islâmico controlar. Não se sabe bem porquê, por quem. É a frieza do horror que arrepia.

E ainda há quem, por cá, em Portugal, tenha dito, com a calma de sempre, numa sessão plenária, na Assembleia da República, que a Presidência Portuguesa do Conselho da União Europeia “colocou o Norte de Moçambique, desde a primeira hora, como uma das suas prioridades” e que a sua missão de acompanhamento vai chegar a “bom porto”. Ou foi preciso morrer um europeu, ou, já se sabe, continuará a reinar o que reinou até aqui… a ideia de que a pólvora que não cheiramos, não nos atinge. Ficará o silêncio entre a distância.

Passaram mais de três anos…

Herberto Helder escreveu, um dia, “tantos nomes que não há para dizer o silêncio”. Tantos que não há para descrever o enredo do que à volta de Moçambique se passa.

Continuará a dor. O silêncio de tantos. A incerteza dos que lá (sobre)vivem. Mas também, para quem queira, a certeza de que, afinal, Moçambique continua a ser aqui ao lado e de que a memória não pode ser tão curta assim, ao ponto de apagar os laços histórico-culturais que unem os nossos países.

“Tantos nomes que não há para dizer o silêncio” …