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Artigo de Opinião

Investigadora

28/04/2024 07:30

Hoje, logo pela manhã e assim que fechei o portão de casa, comecei a ouvir umas cantorias. Apurando o ouvido, dei-me conta de que era o vizinho a cantar enquanto alimentava os animais – cães, gatos, patos, galinhas – um mini zoo tão comum por estas bandas, que, assim de repente, me fez lembrar o jardim de Epicuro, esse filósofo grego para quem era nosso dever tornar a vida presente a melhor possível. Fácil, não acham?

E por falar em cultivar a vida simples e a felicidade, já são muitos os que têm estendido as toalhas no areal com particular destaque para os estrangeiros cuja alegria, estampada no rosto, contagia até os militantes da resmunguice, aquela espécie incapaz de apreciar a normalidade dos dias e a beleza serena da existência.

Abril é também o mês do Espírito-Santo. Quem me conhece bem sabe que sou cavernista - divisa adquirida na adolescência e atribuída pela minha avó materna, desiludida e estupefacta pela minha insurreição contra o Estado do Vaticano e afins – e que não costumo envolver-me em ritos e/ou manifestações. No entanto, e para espanto de minha mãe, estive não em uma, mas em duas casas, no momento da visita do Espírito Santo. A primeira visita deu-se no Dragoal, na casa da D. Maria Paixão, onde sou acolhida e mimada como se fosse da família. Primeiro, entraram as meninas, entoando cânticos próprios e pedindo licença para entrar e só então entraram os homens, cada qual com a sua bandeira, sendo que um deles carrega a coroa de prata. O ambiente, leve e animado, torna-se solene apenas no momento da bênção e da água benta, que a todos purifica, cada qual a seu modo, e inevitavelmente pensei em Margaret Atwood quando escreveu que “water does not resist. Water flows”, evidenciando que a água não só chega sempre ao seu destino como contorna os obstáculos.

A segunda visita, no Vale do Touro, juntou-nos a todos, a minha família de acolhimento - Sara e Zeca, Mercês e Zé, Cristina e as pequenas e ainda dei um saltinho à casa do Santos. Já parecia os velhos tempos das patuscadas que se estendiam noite dentro. Resumo: estou duplamente abençoada! Quem diria?! Confesso, no entanto, que, logo de seguida, me meti mar adentro. Espero que os espíritos e todos os santos não me levem a mal. É que para mim, bênção é com água salgada, bem temperada, portanto. Entender-me não é uma questão de inteligência, mas de entrar em contacto, defendeu Clarisse Lispector. Concordo! É na água de sal que me lapido.

E porque tal como diz o ditado em Abril, vai onde deves ir, mas volta ao teu covil, parti rumo às Ilhas de Bruma, neste caso, a Terceira, onde não só se homenageou o Professor Alberto Vieira e o seu legado para a historiografia Atlântica, como se relembrou toda a investigação levada a cabo pelo Centro de Estudos de História do Atlântico e a sua equipa da qual fiz parte durante quase uma década. Colegas, amigos, investigadores, alunos e até alguns curiosos se juntaram com entusiamo a esta iniciativa da Biblioteca Pública e Arquivo Regional Luís da Silva Ribeiro, em Angra. E, assim regressei ao covil de coração (e barriga) cheios. Sim, porque estas coisas correm sempre bem melhor à volta de uma mesa farta. E que mesa! Bem-hajam!

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