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Artigo de Opinião

CONTOS INSULARADOS

4/02/2024 07:30

O aconchego dos lençóis de flanela sobre a pele e cheiro que é casa e segurança. A tua mão, que era mel, a afastar-me o cabelo dos olhos e a fazer uma festinha que percorria da testa ao queixo, demorando-se na bochecha. Quando reviravas as pálpebras e ficavas com um ar monstruoso e eu escondia os olhos entre as mãos, com medo genuíno de que não voltasses ao normal e os olhos ficassem do avesso para sempre. A tua gargalhada sonora, o sorriso que te faziam os olhos pequeninos, e a falta de jeito para explicar as mudanças que o meu corpo de criança ia sofrer. A proteção e orgulho desmedido, desproporcional.

Trocámos papéis, sem querer ou pedir. A cama onde te aconchegas agora é a minha. Não sei virar os olhos do avesso, como fazias e não te quero assustar mais. Estou eu do avesso e tu deves estar com medo, mas não dizes. Faço-te festinhas na imitação que posso e consigo e digo piadas tontas, que é a maneira de te dizer o que a minha voz cala.

Já não sabemos que papéis são os nossos. Vejo-te pequenina, indefesa, e dou o melhor que tenho para te proteger contra o que é mais forte que eu, mas sempre a tentar que não me vejas derrotada, perdida e vazia. Não sei se disfarças ou se a dor te dá tréguas por um bocadinho, mas arranjas força para me amparares da tua ausência, que havia de chegar em breve. Não sabia que aquelas manhãs de amor eram um estágio para este rito de passagem, doloroso, para a minha orfandade eterna.

Parece que estamos a voltar aos meus tenros anos e à cama que havíamos - a mana e eu- de partir numa tarde de saltos, deixando o colchão no chão. Os lençóis de flanela e o cheiro que é casa e segurança. Uma espécie de eterno retorno, ao lugar onde tudo começa e onde não quero que acabe. Morreste-me, como no livro de José Luís Peixoto, e “oiço o eco da tua voz, da tua voz que nunca mais poderei ouvir. A tua voz calada para sempre. (...) Tudo o que te sobreviveu me agride”.

Até que deixa de acometer. O que tenho agora é medo de deixar de ouvir, no silêncio, a tua voz e deixar de sentir o teu cheiro e o aconchego dos lençóis e da tua paciência e orgulho infinitos, desmedidos, desproporcionais. E a saudade permanente de ter de sobreviver sem ti e aos aniversários que já não celebras, mas que não esquecemos. Parabéns.

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