Existem várias frases famosas e muitas piadas machistas sobre a dificuldade de compreender as mulheres. Até os planetas parecem estar metidos no assunto, com referências a vénus e marte... afinal o que existe de incompreensível na mulher?
Em primeiro lugar, estas afirmações são de uma cultura masculinocêntrica. Num mundo de homens intelectuais ocidentais, a distância das emoções e das mulheres foi cada vez maior e tornaram-se, durante um longo tempo, inacessíveis à sua compreensão. É muito curioso como só a partir de 2020 finalmente começamos a compreender as grandes falhas na investigação médica sobre a biologia da mulher. Se a mulher não era prioridade, como pode ser compreendida?
Em várias culturas antigas as mulheres eram as detentoras dos conhecimentos e intervenções de saúde. No mundo ocidental foram expulsas da medicina e mortas como bruxas. Através da luta de mulheres como Elizabeth Blackwell e em Portugal de Elisa Augusta da Conceição Andrade. No final do século XX passaram a ser a maioria dos alunos de medicina. Apesar disto, continuam a ser desvalorizadas e pior. Só com o aumento das mulheres na ciência e nos cargos de atribuições de fundos de investigação é que se começaram a responder às questões femininas. Porque até aqui, as descobertas para os homens eram tidas como iguais nas mulheres, exceto nos órgãos reprodutores.
Hoje sabemos que há diferenças significativas na biologia feminina e variações importantes conforme as etapas da vida. Investigações recentes sobre o metabolismo e desenvolvimento muscular feminino mostram que os programas desportivos masculinos precisam de ser adaptados. Um dos dados curiosos é a prática dos banhos gelados. Segundo a Dra. Stacy Sims, especialista em exercício e nutrição feminina, explica que as mulheres para tirarem o mesmo benefício dos banhos gelados, a água tenha de estar 15ºC mais quente. Aborda as diferenças do metabolismo feminino ao longo do ciclo menstrual e também na menopausa. É curioso como sabíamos tão pouco da menopausa na medicina até há poucos anos. No reino animal a menopausa é raríssima e foi dada pouca importância. Hoje começamos a conhecimento e ferramentas para melhorar o processo.
Mas são as mulheres incompreensíveis? Diria determinantemente que não. É óbvio que para os homens é difícil compreender as mulheres. As mulheres têm naturalmente um domínio maior da linguagem do que os homens e maior acesso às emoções. Têm prioridades e necessidades diferentes. Num mundo ordenado pelos homens é preferível não compreender a ceder à visão feminina no mundo. Se genuinamente dermos valor, dedicarmos tempo e prestarmos atenção, pouco será o incompreensível.
É preciso informarmo-nos do que acontece com as diferentes etapas, para podermos compreender e apoiar. Por exemplo, o pico de divórcios das mulheres é nos anos antes e depois da menopausa, com uma tendência para se sentirem mais felizes depois de recuperarem das alterações hormonais da menopausa.
Porquê que se pensa que a menopausa existe em humanos? Pela vantagem evolucionária de termos quem cuide e quem sabe. É a sabedoria feminina liberta dos ciclos de fertilidade que permitiu “salvar” a humanidade frágil. Por isso, muitos dos conselhos das avós são sobre a segurança, saúde e sobrevivência. Precisamos de valorizar as mulheres, sobretudo depois da menopausa. Numa sociedade que valoriza a juventude e não a sabedoria, escolhe-se o caminho para a ignorância. Que o envelhecimento possa ser algo de se estimar.