Próximos do período natalício, não parece que as luzes e as barracas de poncha enfeitadas de manhãs de páscoa nos consigam distrair do que se vai passando no palco político e nos seus bastidores. Com o líder em Lisboa a temer ficar fora de cena por deixar a Madeira continuar a ser a pedra do sapato do slogan “limpar tudo de todos os corruptos”, o líder regional, a tremer, lá apresentou uma moção de censura com um parágrafo orquestrado para ser deixa de saída do PS Madeira. Não tendo tido sucesso os efeitos especiais e com o vislumbrar-se de uma moção a fazer cair o pano sobre o governo, o Chega procura a ajuda do ponto para ensaiar a próxima fala que o salve. Depois, entra em cena o orçamento, que no ano passado foi adiado para bem mais tarde sem nisso o governo ver problemas, com os discursos apocalíticos e o dedo apontado para a oposição como vilão do desastre.
Fica o resumo mais ou menos feito de uma situação que muito se parece ao que Piero Paolicchi descreve no seu “Para Uma Teoria Geral da Imbecilidade” – a mesma que faz com que os indivíduos prefiram satisfazer o sonho de César ou de Alexandre, seguindo-os para terras longínquas, em vez de se defenderem a si próprios, aos seus caros e à própria terra. A decadência de qualquer império dá-se quando uma maioria que apenas sobrevive serve uma minoria que detém o poder e a riqueza, especialmente se concentrados numa pessoa, e prefere os espetáculos do coliseu para não ter de se decidir a ter o comando sobre a própria vida. Uma maioria que, depois, seguindo a mesma teoria, culpa todos e, em especial, a oposição, num pessimismo a que a idealização do império criado foi alimentando. Paolicchi chama-lhe cegueira, desculpa e amor pela faustosidade de quem nos governa.
Ora, a oposição demonizada pelo sistema – quer pela ideia de que não tem “quadros” (a oposição até pode ter o Louvre inteiro que nunca é reconhecida), quer porque lhe falta criatividade, iniciativa (a oposição até pode ter ideias à Elon Musk que é sempre fraquinha), quer porque “não se entendem lá dentro” (a oposição até pode juntar-se toda à mesa no Natal para cantar amor e paz familiar que será sempre um “saco de gatos”) – serve a quem alimentou a ideia do caos-depois-de-nós e nutre a passividade. Nos sistemas com uma oposição política válida, como é o nosso, esta detém uma função constitucional indispensável ao correto funcionamento das instituições, já que controla e equilibra. Mas, o que fez o partido no poder durante décadas foi a deslegitimação moral e política do adversário - como dogma intocável – inspirando a ideia de que “todos são iguais”. Ideia de ouro explorada pelo Chega na moção de censura que atribui ao PS Madeira a partilha cúmplice de culpas no desgoverno que critica.
É óbvio, e também natural, que a oposição trabalhe para reverter a situação política, apresentando soluções e um programa diferente. E é óbvio, e natural, que o partido no poder faça resistência à mudança. A verdade é que durante décadas se minou de tal forma a ideia de oposição que se ultrapassou o confronto político normal e fisiológico, criando uma anomalia que não pode ser ignorada. E parece, assim, que não há nada nem ninguém que preencha as características messiânicas que se exigem a um líder da oposição e ao seu partido.
No entanto, a oposição não é “mais do mesmo”, nem é cúmplice do governo, e é necessário que se compreenda que a “questão social” preocupante não se deve a quem durante anos a denunciou e para a qual foi apresentando soluções. Talvez seja a hora de afastar os olhos do espetáculo do coliseu e ler os programas, deixar de engordar a multidão que segue quem está à frente cegamente, promovendo uma dialética política normal entre a maioria e a oposição. Se tudo for sacrificado no altar da mera conveniência política e da exploração mais vulgar, preparemo-nos para uma época difícil e complexa para a própria eficácia da ação governativa.