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Artigo de Opinião

Economista

22/02/2024 08:00

Todos os anos a CCTV (China Central Television) difunde, para mais de mil milhões de telespectadores, a Gala de Ano Novo, vulgarmente apelidada de Chunwan. O Chunwan é um espectáculo de variedades, que inclui números de música, dança, comédia e drama, sendo para muitas famílias chinesas, incluindo emigrantes chineses, um ritual a observar na véspera do Ano Novo Chinês.

Mas o Chunwan é muito mais que cerca 270 minutos de entretenimento, é um programa televisivo nascido em 1983 quando a China e o Reino Unido negociavam intensamente o futuro da atual Região Administrativa Especial de Hong Kong, sendo por isso um projeto do Departamento de Publicidade do Comité Central do Partido Comunista da China (Zhongxuanbu). E este ano não foi excepção. O Chunwan do Ano do Dragão, que ocorreu no passado dia 10 de Fevereiro, voltou a transmitir de forma sublime uma mensagem, ou carta de intenções, da China para o Mundo — combinando exímia e esteticamente o folclore, e as artes clássicas chinesa e ocidental, comunista, militar e contemporânea.

A primeira mensagem emitida pelo Zhongxuanbu é a de que a iniciativa Cinturão Económico da Rota da Seda e a Rota da Seda Marítima do Século 21 continua viva e é uma prioridade do Governo da República Popular China. Esta mensagem ficou patente pelo fato da capital da Província de Shaanxi, Xi’An (literalmente “A Paz Ocidental”), ter sido uma das quatro cidades co-anfitriãs, para além de Pequim, da gala e ter sido promovida não só como a “capital da nova e antiga rota da seda”, mas também como cidade literária, aludindo à passagem, pela mesma cidade, do famoso poeta Li Bai (701–762) — traduzido para português pelo sinólogo António Graça de Abreu em 1990.

Para além da iniciativa da Nova Rota da Seda, a China quis passar uma mensagem de harmonia inter-étnica e de respeito pelo legado cultural que cada uma das 55 etnias traz à tapeçaria que é a cultura Chinesa. Não é por isso de estranhar que o Zhongxuanbu tenha escolhido como co-anfitriã Kashi, cidade milenarmente famosa pelo seu oásis, localizada na Região Autónoma Uigur de Xinjiang e conhecida como “A Pérola da Rota da Seda”. Kashi foi decorada, para o Chunwan, ao estilo das “Mil e Uma Noites” para promover as suas danças tradicionais ao som de uma música cantada em mandarim por cantores Uigures e Hans, enquanto a atriz uigure Dilraba Dilmurat dançava ao som da mesma.

De Kashi, saltamos para Changsha, com uma população de mais de 10 milhões de habitantes, a capital da Província de Hunan e a casa de duas zonas de desenvolvimento económico e tecnológico (zonas francas especializadas) dedicadas à alta tecnologia, biotecnologia e à indústria de novos materiais, as quais são peças de um xadrez económico que pretende o desenvolvimento desta província sem litoral por via da integração económica desta com as suas vizinhas: Guangdong e as Regiões Administrativas Especiais de Macau e de Hong Kong.

Por último, mas não menos importante, a cidade de Shenyang foi a outra co-anfitriã da noite, por razões não tão óbvias à primeira vista. Shenyang, com uma área metropolitana de 23 milhões de habitantes e inserida na Província de Liaoning, é um importante centro industrial na China e é a cidade central da Nova Zona Especial de Reforma dedicada às indústrias pesada aeroespacial e de defesa, sendo também a cidade mãe dos principais caças da Força Aérea do Exército de Libertação Popular.

Ao longo Chunwan assistimos ainda à promoção do poderio naval do Exército de Libertação Popular com a transmissão de imagens do porta-aviões Liaoning e dos submarinos nucleares; o eterno piscar de olho a Taiwan com o sempre presente ilusionista taiwanês Liu Qian; e a utilização, com sucesso, de música rap em pelo menos cinco números musicais como forma de aproximar Millennials e Geração Z ao Partido Comunista Chinês. No entanto, a mensagem mais marcante pode ser encontrada na letra da música, intitulada “Sem Ti”, cantada pela aclamada tibetana Han Hong: “os ombros de ferro [do povo chinês] carregam a aspiração pelo rejuvenescimento de um país poderoso”, que o vento e a neve não podem mais ocultar. Uma alusão clara de que o Partido Comunista Chinês é o herdeiro de uma civilização e legado histórico ininterruptos com mais de seis milénios e cuja presença no mundo não pode mais ser ignorada.

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