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Artigo de Opinião

silviamariamata@gmail.com

3/02/2021 08:13

- Ai! Estremeci! - disse o Alberto a saltar na vereda assustado, todo arrumadinho, limpo da cabeça aos pés, bem engomado, as calças de terileno bem festladas, o cabelo negro ondulado nas pontas, ligeiramente comprido à anos sessenta, bem penteado e ainda molhado colado à cabeça. O sorriso franco, a cara risonha e bem-disposta.

O Alberto foi à sua vida e ela à sua. Ele atrás do balcão da venda do senhor Roberto a pesar milho em grão e estraçoado para as galinhas, açúcar para adoçar o café, colorau, caré e pimenta moída que media com um cocho apropriado, quase minúsculo, se fosse preciso, deitava num pedacinho de papel pardacento e enrolava nas pontas com uma perícia como só ele e estava feito o embrulho. Também media petróleo para acender o candeeiro ou para esfregar no soalho por causa do caruncho. Metia as mãos nos grandes cestos de pão que entregava aos clientes que eram também os seus amigos e depois assentava no rol tudo o que cada um levava para ser pago no fim do mês e as contas tinham de bater certo. E ele sabia. Não falhava. O lápis atrás da orelha estava sempre pronto a entrar em ação.

- Alberto, dê-me um litro de vinagre para pôr no rol - pediu ela, o rosto quase à altura do balcão - e tenho aqui um escudo para um gelado de gelo de morango e um gamesse.

- Tenho muita pena - disse ele com a cara mais triste do mundo - mas vais dizer à mãe que o vinagre azedou e que o gelado ficou em pedra no congelador - recuperou o fôlego e concluiu num sopro baixando-se à altura do balcão - o gamesse é feito de tripas de gato podre, não presta!

Só em casa a mãe esclareceu.

- Claro que o vinagre é azedo! Claro que o gelado fica em pedra no congelador! Claro que o gamesse é feito de tripas de gato podre! Sei lá que gosto isso tem!

Voltou outra vez à venda, a cara cor de tomate. Ele a rir-se malandro.

De repente o Alberto deixou de aparecer. Sumiu-se da venda. E toda a gente falava no ultramar. Ele foi chamado para o ultramar. E Mariana imaginava que o ultramar era um lugar longínquo e belo cheio de coisas boas. Afinal, o ultramar era igual a guerra, a armas, a sangue.

Quantos anos se passaram? Alguns. A vida continuou o seu rumo sem o Alberto atrás do balcão da venda.

- O Alberto já veio - diziam.

Quando Mariana viu o Alberto, dececionou -se. Tinha a camisa fora das calças que já não estavam bem engomadas. E o Alberto ria, ria muito, mas o seu rir era de nervoso. Tinha uma gaita e pôs-se a tocar. E a sua melodia era quase um choro. O Alberto estava mudado. Já não era o nosso vendeiro. Passou a ajudar quem precisasse a troco de um prato de comer. Começou a embebedar-se forte e feio.

Passou a jogar sempre no euro-milhões e a querer ser rico para poder almoçar todos os dias fora. Sempre prometeu mundos e fundos a toda a gente. À Mariana prometeu uma viagem à Austrália; ao Paulo prometeu um carro novo em folha; à Rubina, uma casa com piscina. A toda a gente prometeu coisas boas e caras.

Um dia, passou a falar sozinho, a chamar "papa-açorda" a alguém evasivamente. Não se sabia a quem. E à Mariana começou a chamá-la de longe e a ditar-lhe problemas aritméticos intrincadíssimos que ela não sabia resolver. Mas o Alberto sabia. Lá vinha ele de lápis atrás da orelha como antigamente pronto a fazer as contas num papel pardo que trazia guardado na algibeira há que séculos!

- Pronto! Correto! - dizia ele somando daqui, dividindo dali, falando em medidas de grosas e de meias grosas. Fazia a prova dos nove e ria de alegria. "Bate certo!"

"Quem gosta gosta; quem não gosta põe-lhe flores" - Foi o que disse o Alberto à Mariana num dia de dezembro, quando chegou à casa dela para lhe oferecer a árvore do Natal. Tinha-a apanhado não se sabe onde e queria-a oferecer cheirosa à Mariana! Que lindo! Mas a Mariana disse que não gostava do pinheirinho por estar desfalcada dos ramos e foi então que ele respondeu o que atrás já foi citado e foi-se embora com o presente às costas. Assim, sem confusões. Queres queres, não queres e não lhe pões flores, eu ponho-me a andar. Corajoso! Liberdade! E foi a falar sozinho.

Mais triste era quando volta e meia ele caía em si.

- Matei um preto - confessava ele a chorar. Apontei a G3 e pum. Ela caiu morto da árvore, de olhos abertos a olhar para mim! Coisas da guerra. E chorava. Chorava e ria o Alberto e embalava-se no seu canto triste. As mãos entre os cabelos grisalhos esperavam a noite e ele ia dizendo ao ar: "papa-açorda". E ninguém sabia traduzir aquilo.

Com a pandemia da covid-19, correu a novidade de que Alberto estava doente! Vieram buscá-lo. Ele não queria ir. Teve de vir a polícia. Quando se vi aquele povio todo junto ao galinheiro onde ele dormia, pensou-se que ele tivesse morrido. Mas, não. Estava doente. Não queria ir ao hospital. Saiu do galinheiro sentado na cadeirinha da ambulância e foi. Esteve amarrado no hospital, porque queria fugir que já estava bom! Ai! Alberto!

Agora, foi transferido para um lar na Tabua! Ai Alberto! Deixa-te quieto aí! Aí, tens comida e banho todos os dias! Fica-te por aí! Tu mereces tudo de bom, nosso servidor da pátria e arredores! Mas eu sei! Como não ficarias feliz ao ver o sol se pôr
do teu lugar!

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