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Artigo de Opinião

AQUINTRODIA

30/04/2024 08:00

Circulava a pergunta nas redes sociais: onde estavas no 25 de Abril?

A 24 de Abril de 1974, regressei a Moçambique, para a última parte da comissão de guerra, no último voo que levantou de Lisboa, antes da ocupação do aeroporto, pelo movimento das forças armadas. A 25 fui informado, já em Tete, do sucesso da mudança. E a festa foi bem rija, pá. Nem dá para contar...Estivera de férias, com o privilégio de ter podido visitar a Ilha e o «puto» (assim era conhecido o Continente português nas colónias).Cheirava a qualquer coisa. Tinha havido o golpe falhado do 16 de março nas Caldas, circulava o «Portugal e o Futuro» do general Spínola, já a lançar ideias de solução para o problema da guerra em que eu, como tantos, fora forçado a participar.Alguns conseguiram «fugir», aninhando-se em países que os acolhiam como refugiados. Era um passo de coragem, decisão difícil, de futuro incerto, sem saber da possibilidade de regressar um dia.Muitos, como eu, foram apanhados na teia da mobilização. As minhas circunstâncias não me permitiram outra saída.Uns tiveram a ventura da «cunha», que os tirava da lista.Eu lá fui, graduado em alferes miliciano, do mal o menos, com um vencimento que até permitia férias na Ilha, e me deu verba para a compra dum «fiat» 127 no regresso.Concluída a especialidade em Operações Especiais, fui formar companhia em Torres Novas. Éramos um grupo de cerca de 150 homens, juntados à sorte e ao acaso, para breve partir para uma guerra perfeitamente evitável, desde que houvesse capacidade e humildade para o diálogo, em vez do famoso: para Angola e em força! com que Salazar, do alto da sua cátedra ditatorial nos brindou.

A 13 de Novembro de 1972, desembarcámos em Gago Coutinho, Norte de Tete, mesmo à beira da Zâmbia.Apesar do risco, houve espaço para construirmos o nosso cancioneiro, onde repudiámos a guerra que nos batia no arame farpado, lamentámos os dias de mato, o esquecimento a que nos votavam os do ar condicionado, a falta de mantimentos, cantámos o desejo de regressar e voltar a ser homens...Regressados em outubro de 1974, hoje somos um grupo que anualmente se reúne e celebra a amizade, sem esquecer quem tombou.

Abril fez 50 anos! Andou esquecido, ignorado, os cravos andaram murchos. Abril parecia envergonhado de ter acontecido. Iniciado o ciclo da liberdade, o caminho para o desenvolvimento integral fazia-se lento. A democracia era um livro por aprender. O fosso que nos separava dos vizinhos era um mar. Sobravam gestos de arrogância capitalista. Temia-se e rejeitou-se claramente a sovietização que não dava bons frutos em parte nenhuma. Chegaram os extremos, e andámos um bocado às aranhas. Os mais jovens desconheciam a mudança de 74.Encontrar um rumo adequado às nossas características levou tempo.

Mas Abril fez 50 anos! Abril voltou a ser inteiro e limpo e popularizado, como deveria ter sido sempre. Portugal fez as pazes com o 25 de Abril. O 25 de Abril saiu dos anfiteatros carunchosos ou bolorentos, ignorou discursos de azedume e ressabiamento e veio para a rua. Na maior avenida do País, com nome de Liberdade, no centro da capital desta Ilha, desfilaram todas as cores e gerações, vieram famílias inteiras, os mais novos mostraram afeto e conhecimentos da data, derramou-se a emoção, os abraços partilharam saudade. As canções voltaram a ter voz de peito cheio, vibraram em gargantas roucas de velhice ou cristalinas de juventude. O País encheu-se de exposições e manifestações em redor de Abril. Inaugurou-se o Museu da Resistência e Liberdade, publicaram-se livros alusivos. Os cravos voltaram a ter poiso nas lapelas. Espero que o País se tenha reconciliado consigo mesmo! E que não receie celebrar o 25 de Novembro, que confirmou o 25 de abril.

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