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Artigo de Opinião

Economista

4/05/2023 08:00

O golpe de Estado não violento, liderado pelo Movimento das Forças Armadas (MFA), derrubou o regime do Estado Novo, uma ditadura fascista que governava o país desde 1933. Celebrada como uma vitória da democracia e da liberdade, a Revolução dos Cravos é elogiada pelo seu carácter pacífico e pela rápida transição para um governo democrático que se seguiu. No entanto, em retrospectiva, este importante acontecimento pode ter preparado o terreno para os actuais problemas económicos de Portugal.

Por um lado, a revolução conduziu a um processo de descolonização caótico e sem qualquer planeamento. A perda dos territórios ultramarinos de Portugal, como Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe, resultou numa redução drástica dos recursos económicos e de parceiros comerciais. Portugal viveu um desafio de adaptação à sua reduzida posição de país europeu, e o processo de abandono das colónias contribuiu certamente para o seu fraco crescimento económico. Acresce ainda o facto de Portugal ter perdoado a dívida, sem nunca ter divulgado montantes, das ex-colónicas, hoje países soberanos e por conseguinte com obrigações financeiras. Além disso, o período imediatamente a seguir à Revolução dos Cravos foi caracterizado por turbulência social, política e económica. O Governo da III República implementou uma série de reformas socialistas, incluindo a nacionalização generalizada de indústrias e bancos, a redistribuição de terras e o aumento da despesa pública. Essas ações resultaram em um aumento da inflação, na saída de capital, na diminuição do investimento estrangeiro e na falta de competitividade económica.

A entrada de CEE em 1986, mais tarde re-organizada como União Europeia (UE), deveria trazer prosperidade económica. No entanto, os problemas económicos do país persistiram, com Portugal a lutar para se adaptar às pressões competitivas do mercado da UE. De acordo com o Banco Mundial, a taxa média anual de crescimento do PIB de Portugal entre 1986 e 2021 foi de apenas 1,32%, muito abaixo da média da UE de 2,08% durante o mesmo período (Banco Mundial, 2021). Além disso, o desenvolvimento económico de Portugal tem sido prejudicado pela falta de investimento em áreas-chave como a educação e a inovação. Portugal ocupa o 29.º lugar entre 38 países da OCDE em termos do seu sistema educativo, e a sua despesa em investigação e desenvolvimento em percentagem do PIB é de apenas 1,37%, em comparação com a média da OCDE de 2,37% (OCDE, 2021). Como refere a Economist Intelligence Unit (EIU), "O baixo investimento em educação e inovação deixou Portugal com uma força de trabalho pouco qualificada e uma falta de competitividade no mercado global" (EIU, 2021).

A Revolução dos Cravos não é a única causa dos actuais desafios económicos de Portugal. No entanto, é difícil ignorar que o legado socialista e comunista da revolução contribuiu para uma série de grandes erros económicos e oportunidades perdidas que prejudicam ainda hoje o desenvolvimento sócio-económico do país. Embora o 25 de Abril (e o 25 de Novembro), tenha trazido a democracia e a liberdade a Portugal (e as Autonomias à Madeira e aos Açores), o mesmo lançou as sementes das suas dificuldades sócio-económicas atuais, em especial quando comparado com a atual Europa Central e de Leste.

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