Que agora seja de vez

O boom turístico da atualidade, a diversidade de ofertas e de segmentos da procura, a crescente atratividade da ilha, parecem estar a desembaraçar velhos problemas do concelho.

Há décadas que Machico anda às voltas com a atividade turística. Até agora quase tudo tem falhado. Foram anos de promessas, expetativas e experiências frustradas. Tudo começou pelos finais dos anos sessenta com a Matur e o Hotel D. Pedro. Ficou enraizada a ideia de que a cidade poderia transformar-se num polo turístico alternativo. O tempo ditou o contrário. Foram várias as causas. Algumas políticas.

A Matur fechou com a ampliação do aeroporto, reconvertida em zona residencial, depois de anos de agonia empresarial. O D. Pedro foi-se aguentando, num segmento low-cost, e os novos investimentos não passaram de meras quimeras. Nem hotel junto ao campo de golfe do Santo da Serra, depois de lançada a primeira pedra, nem resolução do Forte de São João Batista, nem hotéis nas encostas. Apenas algumas pensões foram surgindo. O único real impacto foi o nascimento do resort da Quinta do Lorde.

Uma unidade hoteleira de grande envergadura que mereceu, desde a sua génese, uma forte oposição do PS local, muitas vezes disfarçado nas hostes ambientalistas. Foram feitas queixas no ministério público, foram promovidos inquéritos parlamentares, foram criados todos os obstáculos que agora os mesmos negam de pés juntos.

O empreendimento foi por diante graças à tenacidade do empresário Ricardo Sousa e sempre acarinhado pela Câmara, então do PSD, que via naquele projeto uma oportunidade única para Machico reganhar o seu lugar de direito no sector hoteleiro madeirense. Acima disso, vieram os problemas inerentes à empresa que a crise financeira veio acentuar.

Após anos de impasse, surge agora a excelente notícia. Todo o empreendimento vai ser explorado como um hotel duma marca de prestígio internacional. A Wyatt Hotels Corporation.

Assim, continuam três problemas por resolver. Um, a construção das novas unidades hoteleiras anunciadas, mas sempre adiadas. E isso dependerá do investimento privado que cabe ao município atrair. Depois, os dois velhos imbróglios. A Matur e o Forte de S. João Batista.

Passados tantos anos, resta à Câmara de Machico tomar uma posição de força e face às dificuldades processuais só se vislumbra uma solução. A Câmara deve assumir a liderança destes processos. Estando neste momento numa situação financeira favorável devido à reduzida dívida, o município poderia apostar no seu envolvimento direto na solução desses projetos.

Com recurso ao agora possível endividamento público, a Câmara deveria assumir, em protocolo com o Governo Regional, a conclusão das obras do Forte para depois cedê-lo para exploração hoteleira, recuperando o investimento a médio ou longo prazo.

E para acabar de vez com o caos urbanístico e desregulamentação da Matur, a Câmara deveria e poderia adquirir grande parte das parcelas ainda pertencentes à empresa ou à banca e iniciar o processo de legalização, regulamentação e disciplina urbanística que todo o espaço carece. Aquela anarquia não pode continuar em rédea solta, onde cada um vai fazendo o que quer e pode, numa espécie de terra de ninguém. Na revenda ou no aluguer, a Câmara recuperaria todo o dinheiro investido.

Depois de nove anos de lamúrias e vitimização, a resolução destes dois problemas permitiria a esta presidência, em limite de mandato, deixar um legado mínimo da sua passagem à frente dos destinos municipais.

Vamos lá trabalhar a sério, pessoal. Façam alguma coisa. Machico merece.