África do Sul, princípio do começo duma nova grande era?

Hoje celebra-se o Dia Internacional de Mandela. Se Mandela fosse vivo iria ficar muito desapontado com os acontecimentos da última semana na África do Sul.

O que aconteceu foi precisamente o que todos nós não queríamos que algum dia acontecesse. Recebi ontem uma mensagem da Presidência da África do Sul, que compartilhei com o Dr. Rui Abreu, Diretor Regional das Comunidades. A comunicação, segundo Ramaphosa, dizia que todos nós teríamos de seguir a nossa Constituição que tanto sofremos para adquirir. Que ninguém podia estar acima da lei e que os transgressores da lei nos últimos dias seriam procurados e punidos. Sabemos que alguns desses cabecilhas já estão presos. Faltam ainda capturar outros, incluindo um alto quadro que faz parte dos serviços de informações e que está em parte incerta.

A grandeza e lição a ser derivada dessa situação foi a coesão e responsabilidade social demonstrada pela população civil quando a situação estava fora de controle. Os civis armaram-se para defenderem uns aos outros, as suas propriedades, os seus centros comerciais e ainda a infraestrutura de todos. Nunca tal atitude tinha sido demonstrada nesta escala. Formaram-se voluntariamente equipas de autodefesa e de limpeza dos centros comerciais. As retóricas políticas passaram para segundo plano e o bem coletivo prevaleceu. Grupos de pessoas entraram em casas de saqueadores e removeram bens roubados e devolveram os mesmos aos negócios. Era preciso proteger quem dá emprego às pessoas. Havia necessidade de proteger essa situação.

Não será com destruição que iremos criar uma África do Sul melhor. Todas as pessoas sensatas e de bem que constituem a maioria dos sul-africanos de cor, associação política e religiosa compreenderam isso e tomaram medidas para proteger os princípios da Constituição democrática.

Por isso digo que com esta mentalidade da maioria, só podemos melhorar e criar um país e sociedade melhor. Populismos baseados em slogans e retórica, não dão empregos, não combatem a pobreza, não edificam nem formam a nossa juventude e nada resolvem. Basta ver o caso Zimbabué, país vizinho que adotou práticas populistas com consequências devastadoras para o país. No fim quem sofre é sempre o povo e não as elites que propagam esses populismos de oportunismo.

O que Portugal podia fazer seria criar uma linha de comunicação direta com a comunidade residente na África do Sul, dar apoio psicológico e fazer saber que podiam contar com as autoridades portuguesas num caso extremo. Portugal assim fez, mas teremos de melhorar muito essa atuação futura.

O que se fez nesse sentido? No princípio dos tumultos o Embaixador Manuel de Carvalho emitiu um comunicado dirigido à Diáspora dizendo que em casos de emergência deveriam contactar Lisboa ou contactar uma linha existente dum telemóvel de emergências do Consulado-Geral de Joanesburgo.

Para agravar a situação não havia Cônsul em serviço em Joanesburgo. A Cônsul-Geral l de Joanesburgo encontra-se com licença de parto/maternidade e tinha sido substituída temporariamente por uma Cônsul interina, mas cujo contrato de trabalho não tinha sido renovado e já não se encontrava ao serviço do MNE.

A chefia do Consulado de Joanesburgo estava nas mãos duma Chanceler Adalberta Coimbra, que é muito afável e competente, mas que regressava ao serviço após ter contraído o Covid 19 e, portanto, com certeza ainda fraca em termos de energia. Cumpriu da melhor forma que podia e agradecemo-la pelo seu empenho gigantesco.

Em relação à Madeira, o Governo Regional, através do Dr. Rui Abreu seu Diretor Regional das Comunidades e que funciona sob a alçada da Presidência, foi incansável nas suas comunicações contínuas com os seus Conselheiros e com membros da Comunidade madeirense na África do Sul.

Devo dizer que Rui Abreu criou desde o início do seu mandato uma linha de comunicação com os seus Conselheiros da Diáspora com quem mantém um contato diário com os mesmos. Uma atitude louvável.

Há uns dois anos, criou-se um site do Grupo de Conselheiros aonde os Conselheiros comunicam entre si e com o Diretor Regional, tudo o que lhes apetece em termos de problemas e acontecimentos na Diáspora.

Em relação à situação dos últimos dias, todos os dias o Diretor Regional e eu contactávamos várias vezes ao dia para nos inteirarmos da situação e confirmar situações. Sei que o Diretor Regional teve encontros virtuais com a Diáspora na África do Sul, incluindo com um outro Conselheiro da Diáspora Madeirense na África do Sul, José Luís Silva, homem conhecedor dos problemas dos portugueses no terreno e que serve dum tipo de assistente social voluntário à Diáspora.

Abro aqui um parêntese para dizer que há 3 anos após outros saqueamentos em Joanesburgo de negócios de portugueses, tumultos semelhantes aos últimos, o então Cônsul-Geral convocou uma reunião com líderes da Diáspora, onde estiveram eu e o Conselheiro José Luís da Silva, que este sugeriu que fossem tomadas medidas de precaução e de antecipação a eventos de natureza semelhante aos acontecidos.

Então o que há a fazer para melhorar a situação no futuro? Há muito tempo que pedimos pela prestação de serviços psicológicos ou duma assistente social a tempo inteiro no Consulado.

Precisa-se dum adido ou técnico de imprensa para melhorar a comunicação com a Diáspora. As necessidades da Diáspora assim ditam. As receitas consulares têm capacidade para pagarem esses serviços.

Vamos todos melhorar a nossa performance e estaremos mais em comunicação uns com os outros.