Afinal: queremos mesmo trabalhar?

Muitos ainda se lembram daquela laracha que se ouvia em miúdos:
“Decorria uma grande manifestação no centro de uma cidade com muitas pessoas a gritar em coro:

- Queremos trabalho!

- Queremos trabalho!

- Queremos trabalho!

Passa um empregador, deita o olho à multidão e convida alguns para trabalhar. Um dos escolhidos reagiu assim:
- Eu?!

Tanta gente aqui e o senhor tinha de me escolher a mim?!”

 

É uma historieta de trazer por casa, mas pode servir de reflexão para algo muito sério a que assistimos nos últimos tempos: ao estranho fenómeno de tantos desempregados, tantas empresas a pedir trabalhadores e tantos subsídios.

Este triângulo não pode, de forma alguma, ser encarado com leviandade e muito menos com populismo. É um caso sério que merece ser tratado com rigor para não meter tudo no mesmo saco. Mas parece impossível passar ao lado desta estranha realidade em que há tanta gente inscrita no desemprego e tantas empresas a reclamar da falta de trabalhadores, sobretudo após a pandemia.

Depois de meses sem nada fazer, o regresso ao trabalho tem sido penoso em áreas como o turismo e a restauração. Em alguns casos parece que desaprendemos, que se perdeu o ritmo e a vontade de trabalhar. Parece que muitos se habituaram a receber e fizeram do ‘fique em casa’ uma forma de vida.

Prova disso são os casos em que os desempregados faltam a entrevistas de emprego, rejeitam propostas ou sugerem maroscas que os permitam continuar a ficar em casa e a receber subsídios e ajudas e apoios e cabazes.

E isso remete para um problema maior que é saber se esta sociedade, esta geração, estes desempregados querem, mesmo, trabalhar. Será que querem? Mesmo?

É evidente que não se pode generalizar. Que há pessoas que desesperam por uma oportunidade. Que há famílias com dificuldades em colocar comida na mesa. Que o desemprego é um drama e uma chaga social de dimensões assustadoras que afetam milhares de madeirenses.

Mas do que se fala aqui é de outra coisa. É de quem tem oportunidades de trabalho e foge delas para se abrigar num qualquer subsídio, num sistema de lay-off que um dia vai acabar, num estado que, à conta das políticas sociais – e na ânsia de garantir votos – foi passando a ideia de que trabalhar não é preciso.

E essa ideia foi ainda mais acentuada à sombra da pandemia. Desde o início que o dirigismo político – e mesmo a comunicação social – ajudaram a construir a ideia falsa de que vamos todos ficar bem. Que haverá subsídios para isto e para aquilo. Moratórias. Ajudas. E quando tudo isso falhar também haverá cabazes. E quando isso não chegar, também haverá caridade oficial ou esmola por decreto.

Esse facilitismo empurrado para cima de cidadãos menos responsáveis talvez ajude a explicar por que razão empregadores são desafiados por trabalhadores para os colocarem no desemprego. Ou outros que fazem contas entre o que ganham das ajudas sociais se não trabalharem e o que ganham se tiverem de ir trabalhar.

Esquecem que alguém paga essas ajudas. E quem paga são todos os outros. Todos os que trabalham e descontam para pagar os seus impostos. São esses, os trabalhadores honestos, que permitem alguns abusos do estado social.

A falha do assistencialismo deve ser encarada de frente e sem populismos. Políticos de todos os quadrantes, dirigentes, empresários, governantes, autarcas, oposição, todos devem pensar se este é o caminho certo. Se foram eleitos para governar ou para dar ao desbarato.

Neste debate cabem todos. E a questão central é muito simples, direta e talvez até cruel: afinal, queremos mesmo trabalhar?