Volta 2020. Estás perdoado.

Desisto. Quero anular a subscrição de 2021. Fico-me pelos 10 dias experimentais. Não é por nada. Apenas porque pensei que seria diferente. Estava a contar com outra coisa.

Tinha tantos planos. 1001 desejos. Afinal ainda está a ser pior que o anterior.

Senão vejamos:

2020 não começou assim tão mal. Pelo menos até março conseguimos fazer a nossa vida. Agora não! Ainda nem a meio de janeiro vamos e o Sporting ainda é primeiro. Ao invés de Alcochete, foi o Capitólio que foi invadido. O Trump afastado das redes sociais. Por cá, já choveu o suficiente para causar danos. Nevou até. O vírus não só não dá tréguas como apresenta novas variantes. E a ameaça de paralisação já é uma realidade. Aos poucos vamo-nos fechando. Bem sei que, para já, é só de madrugada e aos fins de semana. E as escolas só viram o recomeço adiado, mas... É um começo!

Depois, demos por nós a contar os dias para a chegada da vacina. Mal podíamos esperar. Hoje, a vacinação já está em curso. Começou pelos mais expostos ou pelos mais velhos ou pelos mais frágeis ou pelos mais importantes ou pelos mais sei lá o quê... Não sei. Não percebi, mas acho que ouvi ou li qualquer coisa de próprios profissionais de saúde que não perceberam bem a ordem atribuída. O que sei é que estamos pior que nunca!

Os números não param! Oscilam entre o mau e o péssimo. Dispararam de forma tão assustadora quão esperada. Reprimem-se aqueles que, chegados de viagem, não esperaram pelo resultado do segundo teste para desconfinar. Reprovam-se os estudantes que não aguardaram para matar saudades dos copos, amigos e familiares (no meu tempo era esta a ordem e parece que não mudou muito). Crucifica-se quem matou o porco com a ajuda de mais de 30. Só quem nunca tiver matado um suíno ou souber a trabalheira que dá, pode indignar-se. São precisos pelo menos 2 para fazer o serviço. Mas para opinar, ver e comer... Ui Ui. Mais uns quantos! Condena-se quem viu o fogo fora do seu quadrado. A forma geométrica e a área não foram escolhidas ao acaso. A ideia era evitar o círculo de amigos! Censura-se ainda quem foi jantar na véspera do fim do ano. Esqueçam isso! A malta janta sempre. Só manteve a tradição. Não viram mal nisso. Havia mesmo algum motivo, sem ser fútil, para não irem?!

Espero estar errado, mas temo que estes números ainda sejam só um aperitivo. Que o prato principal esteja para ser servido por estes dias. No entanto, mais do que os números de infectados, o que me preocupa é saber quantos desses vão precisar de tratamento hospitalar. Quantas camas vão ocupar. Se temos meios para os receber. Se muitos são ou não profissionais de saúde e se os que sobram estão ainda capazes de aguentar turnos cada vez mais exigentes.

Cá com os que vão ter covid como o que eu tive, posso eu bem! Ou mesmo que eventualmente tenham uma dorzinha nas costas. Que percam o paladar e/ou o olfacto. Que se sintam cansados... Vão ver que isso é como o mal da traça. Dá e passa.

O que parece estar a custar a passar é a sombra da corrupção neste país. O caso da Diretora Regional que agora vai responder pelo crime de fraude na obtenção de subsídio não é novo. Nem tão pouco a manutenção da “total confiança” dos seus superiores. Pelo que se percebe, a coisa foi bem-feita! Mais recentemente soubemos de outra embrulhada. Mais negra. Teve, portanto, a ver com o Ministério da Justiça. Esse mesmo! O que devia combater qualquer adulteração e dar o exemplo. Eu bem sei que a prática de maquilhar currículos não é nova. Muito menos virgem. Chega quase a ser moda. Mas não será isso que a tornará legal! Quanto muito conseguirá que se torne mais consentida. Um pouco como viver com o covid. É o “novo normal”!

Mesmo assim, não entendo como continuam a dar razão à máxima de “não é vergonha mentir. Vergonha é mentir e ser apanhado”. Se bem que nos dias que correm, ser apanhado já nem é motivo de embaraço. Em primeira instância nega-se. Se surgirem provas ou contradições, recusa-se ter tido conhecimento. Caso não esteja a funcionar como previsto, tenta-se justificar o erro com vitimização à mistura. Como? Por exemplo assim: “Numa reunião com vários dirigentes dar indicações para que fosse colocada uma informação errada, que facilmente poderia ser desmentida, era acima de tudo uma estupidez. Não me reconheço esse nível de estupidez”. Isto disse a ministra Van Dunem. Depreendo que estejamos perante mais um caso em que, pelos vistos, a pessoa ainda se esteja a conhecer. (Aconselho a procura por um psicólogo. Mas daqueles bons.) Por fim, para acabar de uma vez por todas com a polémica, faz-se finca pé! Mostra-se firmeza no cargo. Deixa-se cair um qualquer subordinado. Coitado! Só não falem em aproveitamento político, por favor. Ainda estou para conhecer algum que se possa querer aproveitar de alguma coisa quando já fez igual ou parecido.

Por falar nisso, dia 24 temos marcada nova ida às urnas. Estou curioso para ver se essa vontade toda de andar na rua se vai traduzir em responsabilidade cívica. Caso contrário para a próxima eleição é de pensar em decretar um recolher obrigatório durante 24h. Só se podia sair para ir votar. Iam ver como a abstenção caía para zero. Ou não. Há sempre quem seja do contra.

 

Pedro Nunes escreve
ao domingo, todas as semanas