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Artigo de Opinião

Bispo Emérito do Funchal

5/05/2024 08:00

No ano de 1957, no mês de julho, encontrava-me em Paris vindo de Roma, para o serviço religioso numa paróquia, para melhorar também a língua francesa, sendo também acompanhado pelo Padre Maurílio de Gouveia.

Viemos para o Arco de Triunfo para ver o grande e variegado cortejo de Julho com uma enorme multidão a gritar e ovacionar “Argelie Francais” para os jovens vindos da Argélia, possessão francesa, e para os jovens franceses “Vive la Belle Jeunesse.”

Hoje, após uma longa data, a opinião frequente nos media europeus é bem diferente, não só em França, mas um pouco por toda Europa, e não somente nela.

Menciona-se a solidão de jovens, da sua fragilidade, de suicídios de estudantes universitários, da dependência de psico fármacos, de relações de conflito com o próprio corpo. A zona dos drogados na Casa de Saúde dos Irmãos de S. João de Deus no Trapiche nunca esvazia. Além disso, uma parte deles, vive quase sem família, o que os leva a ter fragilidades nas relações humanas estáveis e profundas, como o da amizade e de um verdadeiro amor.

Apesar disso, tendo em conta alguns movimentos cristãos e mesmo alheios ao

Cristianismo, como aconteceu com o Papa Francisco já tanto debilitado em Lisboa, a juventude que ali se reuniu, merece o nome de “La Belle Jeunesse”.

A minha juventude foi certamente diversa, dureza da guerra, falta de alimentos para 120 jovens no Seminário do Funchal, apesar disso, quase sempre alegres, na capela e nos domingos na Catedral cantando gregoriano, estudando muito, visitando pobres das Conferências de São Vicente de Paulo.

Certamente que era tempo de sacrifícios, mas de grandes valores morais da Ação Católica e dos Cursilhos de Cristandade.

Por fim, fui enviado para Roma com o Padre Maurílio, estudar Teologia e Sagrada Escritura, com imensa alegria a conhecer a Bíblia onde ela foi escrita na magnífica École Biblique dos Padres Dominicanos franceses, em Jerusalém.

Em Portugal, ainda não chegara o 25 de abril!

De novo em Roma, como Vice-Reitor do Colégio Português já após o Concilio Vaticano II. A cidade de São Pedro recebia fugitivos de Portugal que rejeitavam combater em África, até o Dr. Mário Soares veio ali escrever o livro “Portugal Amordaçado”, influenciando o Vaticano contra as guerras em África. Salazar tinha má fama nos alunos do Colégio, escrevera um artigo no prestigioso jornal Corriere de la Sera contra os padres estudantes em Roma, dizendo que estavam deseducados, mas quando chegassem a Portugal se encarregaria de os alinhar. Como fosse membro da União Apostólica do Clero, e professor de atualização do Concílio, fui convidado a pregar o retiro para a Ordenação Sacerdotal de cerca de 60 diáconos do Colégio da “Propaganda Fidei”. Nessa ocasião os muros da cidade de Roma arrasavam Portugal

com cartazes que nos envergonhavam por causa das colónias. O diretor espiritual da União Apostólica, Padre Esquierda Bifet, informou-me da má fama do nome de Portugal perante os alunos africanos e de Goa, aos quais recusava a liberdade de serem livres.

Preparei-me para ao apresentar-me responder-lhes na primeira meditação: “Caros futuros sacerdotes, eu sou como vós um padre da África onde está a ilha da Madeira

descoberta pelos portugueses que nos governam e oprimem, esperamos um dia ser

livres e responsáveis pelo nosso futuro “. Não foi preciso dizer mais nada, o retiro continuou com muita alegria de todos, em língua italiana, mas os muros de Roma continuaram a enxovalhar os portugueses salazaristas.

De acordo com o Reitor fui visitar o Irão que, nesse tempo, não estava no poder dos Ayhatolas mas do Imperador. O que me interessava era a Persépolis do tempo de Ciro que permitiu a saída dos judeus do reino dos sumeros, em cujos textos se fala da Torre de Babel e do dilúvio, muito antes da Bíblia.

Quando cheguei a Istanbul, para de novo visitar a magnífica Aghia Sophia, hospedei-me no convento dos dominicanos, quando no dia 26 de abril um servo da casa, muito aflito, me apresenta os fatos acontecidos em Lisboa no diário que enchia grande parte do jornal turco. Tive um alívio muito grande, ao pensar nos muros dos palácios de Roma.

Passados 50 anos do 25 de abril, grande parte de jovens não entram nas igrejas, não há hostilidade, não há ateísmo científico, alguns até aparecem nas missas do parto, pelo Natal, criou-se no espaço europeu, um mundo não ateu, mas “sem Deus”. Apesar de tudo, entre alguns jovens há numerosas histórias de fé. O número de seminaristas em quase toda a Europa, as associações clássicas católicas, as religiosas, decresceram de uma forma acentuada. Apesar disso grande número de pessoas diz-me com alegria: “Foi o Senhor Bispo quem me crismou”, tanto na Madeira como em muitas partes do mundo, quando exercia as minhas funções pastorais. O dom do Espírito Santo deixa marcas e sinais. Santo Agostinho escreve: “Senhor eu procurava-te fora e Tu estavas dentro” A cultura moderna exalta a emoção, os slogans aos gritos, mas deixa o pensamento refletido em declínio.

O crescimento da própria personalidade, a alegria, o dom de si mesmo, o que agrada a muitos bons jovens, é o mais, não o menos, o pensar mais, é viver mais, faz parte da

Belle Jeunesse...

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