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Artigo de Opinião

Jornalista

9/05/2024 08:00

Quando fazer o comer a lenha era uma necessidade.

A pobreza era a imagem de marca do período pré e pós-25 de abril de 74.

Nesse tempo a maior parte da população vivia com muito pouco. O que para nós adolescentes ou crianças da altura parecia ser normal, afinal era um sinal de pobreza, por vezes extrema. Tudo era aproveitado. O pouco que havia era muito aproveitado. A comida, sem grandes iguarias, era confecionada de forma rudimentar, mesmo muito rudimentar.

A cozinha era separada da casa principal. Era ali mesmo ao lado, mas a passagem de um lado para outro fazia-se a céu aberto que equivale a dizer que nos dias de chuva não era muito agradável. Muitas destas construções eram feitas com pedra sobre pedra, sem a utilização de qualquer cimento. A cobertura, na maioria dos casos, era de colmo. De tanto fumo, dá para perceber que no seu interior era tudo preto, tudo muito escuro. O fumo envolvia tudo, tingindo as paredes de um negro e deixando uma fina camada de cinza sobre os utensílios usados na cozinha. Até as teias de aranha que se criavam no teto ficavam escuras. Teias de aranha que também serviam de proteção ao que estava mais abaixo. O fumo saía pela porta, pela pequena janela e pelas fendas das paredes. Por vezes, quase nem dava para ver quem estava lá dentro. Lembro-me da minha tia e alguns vizinhos fazerem todo o comer num lar a lenha. Era tudo assim. O lar era aceso logo pela manhã e quase que se mantinha com chama o dia inteiro. Logo pela manhã fazia-se o café. Depois, aproveitando as mesmas brasas e acrescentando mais uns paus aumentavam-se a chama para se cozinhar o almoço. Por vezes, a meio da tarde, fazia-se um lanche. Uns bolos fritos na frigideira. A receita era muito simples: farinha, água, sal e, quando havia, metiam-se uns ovos. Depois de tudo batido, fritava-se em banha de porco. O fumo do lar misturava-se com aroma reconfortante dos bolos fritos. Em alguns casos por vezes, improvisava-se um lar mais pequeno no chão da cozinha, que era de terra batida ou de calçada madeirense.

Ainda tenho presente a imagem de uma frigideira de ferro no meio da cozinha e a minha tia à volta a tratar dos bolos fritos.

Era também neste lar improvisado que por vezes se faziam umas papas de farinha. Uma receita também muito simples que não passava de farinha água, sal e uma casca de limão. As papas eram cozinhadas numa pequena panela de ferro de três pés. Nesse tempo, tudo era racionado. Até a própria lenha, usada como combustível tinha de ser bem gerida para ir rendendo. Usava-se de tudo: pequenos arbustos, pinhas e canas serviam de acendalhas. A lenha era rachada em casa. Os paus que se arranjavam eram transformados com a ajuda de machado. O lar em tempos não muito idos, era a única forma que a maior parte da população tinha para cozer a comida. Nesse tempo também já existiam as chamadas “cozinheiras” que não passavam de pequenos fogões de apenas uma boca e que funcionavam a petróleo. Fogão a gás nesse tempo existia em muito poucas casas. E quando existiam era utilizado apenas para pequenas coisas, porque o grosso da alimentação era confecionada com recurso a lenha num lar. Nem por isso a comida deixava de ser saborosa e porventura bem mais saudável do que a maioria daquilo que se come nos dias de hoje.

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