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Artigo de Opinião

silviamariamata@gmail.com

7/04/2024 08:00

Naquele tempo, quem tivesse à solta um cão que investisse não tinha sossego na vizinhança. Bem dizia a senhora Aninhas: “Aquele não sabe amarrar o focinho a um cachorro”. Aqui está, nas suas sábias palavras, o que indicava o valor da habilidade e do préstimo de um bom dono. O cão era para guardar a casa e dar sinal, quando chegava alguém, e meter o rabo entre as pernas, obediente, quando o dono lhe dava uma tapona no focinho, por mau comportamento. Mas isto agora está tudo mudado e eu já não sei nada.

Acontece que na nossa casa, aqui no alto de São Gonçalo, sempre tivemos cachorros que duravam eternidades. Ainda hoje os temos. O primeiro cachorro de que me lembro foi o Marquês, que nasceu no mesmo dia do que eu e, por isso mesmo, meu pai quis trazê-lo da Travessa da Choupana, como presente para minha mãe. O Marquês nunca viveu amarrado, era bem-ensinado e limpo, conhecia todos os vizinhos, dormia grandes sonecas ao sol e acompanhava minha mãe nas suas lides. Metia-se debaixo da mesa da cozinha na hora das refeições e durou treze anos. Foi uma grande perda na nossa casa o dia da sua morte.

Com a Violeta, tudo foi diferente. Ela apareceu na vereda, vinda não sei donde, talvez do lado do Caminho do Terço. Andava por ali desalmada, a correr para cá e para lá, a ladrar e a investir sem destino a quem passava na vereda. Vai daí, um dia, quando minha mãe estava lavando a nossa roupa no poço, ela chegou-se a arfar e, como o poço fosse daqueles de lavar de joelhos, ela subiu para o lavadouro, minha mãe quieta cheia de medo, e lá ela se meteu dentro da água a saborear aquele consolo. Bastou isso para começar um novo ciclo! Minha mãe deu-lhe um banho e já nessa tarde, a Violeta fez-se da casa, deitada na sorna pelo terreiro com a barriguinha cheia. O Marquês, já velho, aceitou a nova hóspede com indiferença, mas paz. Assim é. A alma vai para onde acha coração. Claro que, quando meu pai chegou a casa do trabalho, não gostou nada daquelas vaidades da cachorra, mas estando tudo em sossego, lá ele fechou os olhos e lá deixou passar. A “menina” Violeta é que passou a se achar muito dona disto tudo e não podia ver ninguém na vereda que deitava logo a correr atrás, toda assanhada, pronta para meter o dente em quem apanhasse. De modo que meu pai decidiu transferi-la para a eira. Acartou às costas a casota dela, com os trapos lá dentro, não sem antes ter escrito um letreiro para que todos os vizinhos vissem: “Todos que lhe deitem comer”. E claro, meu pai disse à Violeta “Ficas aqui” e apontou para a casota. Mas a Violeta pulou atrás de meu pai e teve de ser amarrada para não fugir da eira. Naquele quadro entre cómico e trágico, a Violeta vivia triste e não podia ver meu pai passar na eira à tardinha, que começava a ladrar e a pular tanto, a pontos de ficar com o pescoço em carne viva da pressão da coleira e da corrente. Lá veio a Violeta para a nossa casa outra vez! Tudo trasladado para o nosso terreiro, a casota pintada de fresco. Meu primo Maurílio arranjou-lhe um novo dono e levou-a para a Ribeira Brava, mas ela voltou; levou-a para Machico, mas ela voltou. Chegava à noite, rapava à porta da cozinha a dizer que estava de volta, os olhos a brilhar. Infelizmente, por não haver portões nem muros altos nas casas, os cães que investiam tinham de ser amarrados. O povo sabia que Deus deitou os bichos no mundo para ver o coração dos Homens. Verdade! Todavia, as palavras da senhora Aninhas também tinham de ser cumpridas: é preciso um bom dono saber amarrar o focinho a um cachorro! Era assim. Assim foi!

Agora, tudo é diferente. Quem amarra um cão passa mal. Pois! É preciso educar os donos, desde pequenos, antes de castigá-los depois de grandes! A educação está na base de tudo, até da paz. E nós precisamos de paz.

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