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Artigo de Opinião

Bispo Emérito do Funchal

4/02/2024 07:30

Uma das caraterísticas próprias da natureza humana, desde o que conhecemos pela história da humanidade, é a deslocação de um lado para o outro, o transportar coisas, usando para isso de meios diversos. A mobilidade e a peregrinação são expressões da natureza dos homens, necessárias para o seu desenvolvimento humano e cultural. A Bíblia, dum modo especial no Antigo Testamento, e nos primeiros livros, trata da Torre de Babel, tradição que recebeu do povo sumério, e da dispersão dos homens por todo o orbe então conhecido.

Em nossos dias, o tráfico das mercadorias e das pessoas aumentaram de uma forma vertiginosa. Na Madeira, desde a infância vimos barcos de todos os tamanhos e companhias a chegarem ao nosso porto, uns para a África do Sul a vomitarem grandes fumaradas dos seus fogões. A mobilidade em terra aumentou também entre nós vertiginosamente, por estradas difíceis e abruptas correndo os passageiros o risco da própria vida. Quando comparo com o tráfico atual, louvo a Deus pelos nossos chefes que abriram tantos túneis para comunicarmos tão facilmente do aeroporto à Ribeira Brava, e, hoje, quase por toda a ilha. Contudo, nem sempre o progresso é amigo do progresso da vida humana. O auto condiciona a existência, porque se fez da mobilidade um ídolo, que o automóvel simboliza.

A estrada como a via marítima devem estar ao serviço da pessoa humana para facilitar a vida e o desenvolvimento integral da sociedade, são uma ponte de comunicação entre as pessoas, criando novos espaços económicos e de humanidade. Escreve Pio XII,

“De facto atravesso as estradas circula grande parte da vida de um país”.

Uma estrada não é hoje apenas um meio de comunicação, ela torna-se um lugar de vida na qual se passa grande parte do nosso tempo, mesmo entre os povos em via de desenvolvimento. Os perigos que correm as pessoas provem do congestionamento de tráfico, dos rumores, inquinamento atmosférico, uso excessivo de matérias-primas.

É certo que os veículos em circulação oferecem vantagens, hoje insubstituíveis para o acesso aos estudos e aos trabalhos, fins de semana com as famílias, encontros de amizade e parentesco, o mesmo se aplica às mercadorias, à vida social, ao desenvolvimento económico, a um honesto meio de trabalho.

Em diversos países do mundo, para que a Palavra de Deus ilumine a estrada, está organizado o que chamamos “a pastoral da estrada”, como na Idade Média havia santos que, como o Bom Samaritano, serviam os viandantes, entre eles temos São Roque. Para o cristão, a estrada pode tornar-se um caminho de santidade, conheci vários casos em Roma de carros cheios de mantimentos que seguiam para países em dificuldades da Europa com produtos oferecidos pelos cristãos, que rezavam o Terço

do Rosário, nos diversos carros através dum pequeno rádio.

A sagrada Escritura apresenta a realidade da mobilidade humana, com os seus riscos, as suas alegrias e sofrimentos. Na minha vida, o momento mais doloroso, foi aquele em que dois meus irmãos, num dia de espesso nevoeiro a caminho do Curral das Freiras, por falta de visibilidade, o carro deslizou para dentro duma ribeira tendo morrido os dois.

O automóvel pode ser usado pelo proprietário como objeto de ostentação de si mesmo para eclipsar os outros e suscitar sentimentos de inveja, neste caso a máquina é a afirmação do ego, quando elogia o próprio carro elogia-se a si mesmo, porque esse pertence-lhe e, principalmente, porque o guia. Mesmo nas boas estradas é insensato julgar que não existam perigos. Nesta terra tão pequena o número de mortos ou feridos é muito alto. Durante o século XX morreram no mundo 35 milhões de pessoas por causa de incidentes estradais, quanto aos feridos foram um bilião e meio.

Escreveu o Papa Paulo VI, “muito sangue se derrama cada dia com a absurda velocidade... enquanto se realiza um maravilhoso progresso para a conquista do espaço.” A responsabilidade moral do condutor de estrada deriva também da obrigação de respeitar o quinto e o sexto mandamento: “Não matarás”.

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