Natal 2020-2021

Não sei se este Natal foi pior ou melhor. Para algumas pessoas foi diferente, para outras nem tanto. Para os que têm saúde e a família nuclear por perto, reduziu-se ao essencial e foi melhor, se o carinho não faltou. Pior terá sido para os que se encontram institucionalizados, por razões de saúde ou por necessitarem de cuidados especiais, cuja solidão se torna mais pungente nestes dias, em que inventámos para nós próprios a convicção de que é mais importante ter a presença familiar, do que nas outras épocas do ano.

Para os que respeitaram as indicações das entidades de saúde (muitos ignoraram-nas), os encontros restringiram-se e as mensagens em contexto eletrónico terão suprido o que faltou em contacto físico. Não faltaram, contudo, os lamentos por não poder estar com todos os familiares e amigos com os quais, em outros anos, trocávamos visitas. Um descontentamento oposto ao que costumávamos ouvir por esta altura, quando as festividades natalícias chegavam ao fim e abundavam as queixas sobre o excesso de jantares e almoços com colegas de ocupação laboral ou de lazer; ou sobre o quão cansativo tinha sido passar os dias em visitas e das grandes azáfamas na preparação de ementas para receber os familiares.

Houve menos festas, poluímos menos — só na noite do mercado do Funchal foi espantosa a redução de muitas toneladas de lixo —, talvez tenhamos comido e bebido menos, a bem da nossa saúde. Ainda assim, persistimos em cumprir as tradições possíveis: quisemos a lapinha, o pinheiro e a gambiarra na varanda a iluminar os bonecos do Pai-natal trepador ou os pendões com roliços Meninos Jesus. Tivemos aquele momento em que nos unimos num olhar único, erguido para o céu iluminado pelo fogo-de-artifício para recebermos o ano novo. Dentro de cada casa, viveu-se o carinho ou o desamor; a fartura ou a frugalidade. Cada teto abrigando a sua realidade.

2021 anuncia-se com muitas incógnitas. E a insegurança, sensação que abominamos, estende-se como tapete sobre o caminho que teremos de trilhar. Vamos iniciá-lo unidos numa certeza comum, de que bastas vezes nos esquecemos: a da nossa essência, partilhada com as demais espécies; a da nossa vulnerabilidade e finitude biológica. Mas, como seres animais somos também únicos. Somos capazes de criar beleza com palavras, cores, formas ou sons e de inventar sabores com aquilo que nos dá a natureza. Somos capazes de amar e de nos aliarmos para ajudar os outros na desventura. Mas também somos a negação de tudo isso: destruidores, invejosos, egoístas, cruéis, desregrados, gananciosos... a lista seria longa. Também somos capazes de audácias como a de criar remédios que nos curem, nos livrem da dor e nos prolonguem a vida.

Foi com essa audácia (da qual a visão dos lucros não estará ausente) que se criaram as vacinas contra o vírus que nos tem marcado o ritmo dos dias. Também já cá temos alguma da que nos é destinada. Chegou com honras de vedeta: receção no aeroporto por entidades oficiais, escolta policial e transmissão em direto nas televisões, nas quais, aliás, por estes dias, as habituais sugestões de indumentárias, maquilhagem e decoração de espaços para os réveillons, se reduziram para dar lugar à COVID e à vacina que chega com a promessa de a dominar. Para já, na incerteza da sua eficácia, fica-nos a esperança.

Que saibamos escolher o melhor de nós em 2021.