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Bispo do Funchal: "O que conduz ao seguimento do Senhor é a Sua 'autoridade'"

JM-Madeira

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Data de publicação
16 Junho 2023
11:38

"O que conduz ao seguimento do Senhor é a sua 'autoridade'", pode ler-se na homilia do Bispo do Funchal, neste dia Diocesano do Clero, este ano organizado pelas paróquia do Arciprestado da Calheta, no Paúl do Mar.

Abaixo a homilía na integra:

A Solenidade do Sagrado Coração de Jesus convida-nos, antes de mais, a dar-nos conta desta realidade primeira, que nos envolve e abraça — a nós e a tudo o que nos cerca: "Porque o Senhor vos ama".

Em tudo, com efeito, encontramos sinais do amor de Deus! Aquela questão de Leibniz: "Porque existe algo em vez de nada?" encontra no Amor de Deus a sua resposta radical e primeira, bem como a sua resposta última e definitiva. Não porque sejamos bons; não porque sejamos merecedores mas, simplesmente, porque Deus é Amor. Esta é, assim, a realidade eterna, anterior a tudo, anterior ao nada, anterior ao pecado, anterior ao mal. A realidade primeira mas, igualmente, a realidade última para onde tudo se encaminha, onde tudo há-de encontrar sentido e resolução — e que, assim, tudo julga.

"Porque o Senhor vos ama": esta realidade primeira há-de, por isso, ser declinada nas outras circunstâncias da história. Moisés fazia-o (escutámos na Iª leitura) diante do povo de Israel, aplicando-a aos acontecimentos do Êxodo: "Foi a ti que o Senhor teu Deus escolheu, para seres o seu povo entre todos os povos que estão sobre a face da terra. Se o Senhor Se prendeu a vós e vos escolheu, não foi por serdes o mais numeroso de todos os povos, uma vez que sois o menor de todos eles. Mas foi porque o Senhor vos ama e quer ser fiel ao juramento feito aos vossos pais" (Dt 7,7-8).

Mas aquele originário "porque o Senhor vos ama" é sobretudo concretizado na vida, na pessoa de Jesus. É o segredo do próprio Jesus, aquilo que nele fascina, a ponto de os discípulos serem capazes de largar tudo para O seguir. O que fascina em Jesus, com efeito, não é tanto o seu poder argumentativo, o seu saber ou as suas capacidades de taumaturgo. O que conduz ao seguimento do Senhor é a sua "autoridade". O mesmo é dizer: o reconhecimento nele do Amor na sua raiz primeira, anterior a tudo o resto. Amor que em Jesus encontra a sua epifania máxima e total, deixando de ser um conceito, uma ideia, um sentimento, uma palavra, para vir até nós como um "Tu", alguém, o Amor feito carne!

Jesus é a presença concreta do Amor que é o segredo de tudo quanto existe. Amor vivido numa entrega total, sem limites, universal. É a presença do Amor que se entrega totalmente ao Pai e ao mundo — aquele mundo que Ele tinha vindo salvar. É a presença do Amor que, experimentando a morte de cruz, surpreende os discípulos (cf. Is 53; Act 8,32: "era como ovelha levada ao matadouro"), tal como surpreende muitos dos habitantes de Jerusalém (cf. Lc 23,27) e os próprios soldados romanos (cf. Mt 27,54: "verdadeiramente, este Homem era o Filho de Deus").

É este mesmo Amor que é derramado na manhã de Pentecostes sobre os discípulos e, depois, sobre quantos, naquele dia, participavam na festa judaica. Amor que, por isso, pode unir todos no entendimento único, sem fazer destruir a diversidade de expressões e de culturas. Contraposto à tecnológica Babel dos primeiros tempos, o Amor derramado no coração dos discípulos transforma todo o seu ser, revoluciona a sua vida. Fá-los deixar Jerusalém e partir "até ao fim do mundo".

É também a presença deste Amor original, anterior à própria criação mas manifestado plenamente na Páscoa de Jesus, que permite aos mártires (outra das suas declinações mais excelentes) enfrentar generosamente o martírio, ultrapassando a dor, os insultos, a morte. E é ainda a sua presença que ao longo destes dois mil anos fez surgir os santos no meio do mundo — testemunhas de que o nada, o sem-sentido, a morte podem ser vencidos, definitivamente vencidos, por Aquele que tudo preenche.

E é também este Amor (sempre Ele!) que nos espanta, quando o percebemos concreto no amor de um casal, no sorriso dum recém-nascido ou na dedicação de tantos ao serviço do próximo.

E é Ele ainda que descobrimos presente quando olhamos uns para os outros e (ultrapassando as diferenças e contraposições, as dificuldades do que somos), nos aparece e nos faz descobrir no outro sacerdote a presença sacramental de Jesus que, deste modo, se deixa ver, encontrar, escutar.

Na verdade, foi a presença deste Amor que, um dia, nos convenceu e nos venceu, a nós sacerdotes, fazendo ultrapassar questões e dificuldades (porque o Amor é maior que o pecado e as incapacidades humanas), e nos fez deixar tudo, dando-nos a capacidade para dizer o sim radical e definitivo de quem se coloca para sempre ao serviço, disponível para ser sua presença (desafio tão grande, imenso, que se fôssemos "sábios e inteligentes", jamais o teríamos aceite). Sim: somos, todos nós, presença sacramental deste Amor, presença do coração de Jesus!

2. Engana-se, no entanto, aquele que julga que este é o caminho fácil. Aceitar viver na presença de Deus é bem mais difícil que aceitar viver na presença dos homens. Estar disponível para ser presença do Amor divino — aceitar que todos possam notar a distância que sempre existe entre a nossa vida pessoal e Aquele que anunciamos e tornamos presente (o tesouro do ministério transportado em vasos de barro, a que S. Paulo faz referência — cf. 2Cor 4,7) — é o nosso risco quotidiano, que, em cada momento que passa, nos convida à santidade.

Aceitar ser julgado pelo amor é bem mais difícil que ser julgado pelo pecado. Aceitar ser julgado (perdoado, iluminado, conduzido, transformado) quotidianamente pelo Amor, é um drama para o homem pecador. Porque o pecado permite sempre a negociação, a contemporização, o meio caminho: deixa-se sempre embrulhar e convencer, procurando esquecer a radicalidade do Amor. Ao contrário, deixar-se perscrutar pelo Amor (como sucedeu com a Samaritana que veio ao encontro de Jesus ao meio-dia, quando não há sombra possível) traz consigo a exigência do tudo e do sempre. Sem qualquer outra argumentação.

Por isso (mesmo a partir da nossa experiência), como compreendemos a atitude do jovem rico (Lc 18,18-43); ou o pedido daquele outro que requeria somente uma oportunidade para sepultar o pai (Mt 8,18-22), ou, ainda, aquele que se queria apenas despedir da família (Lc 9,61-62)! Mas é o amor que domina a resposta de Jesus: "deixa aos mortos que sepultem os próprios mortos"; "aquele que deita a mão ao arado e olha para trás, não é digno do Reino".

Como contrastam a sabedoria e a inteligência deste mundo, com a pequenez, a loucura de quem se entrega ao serviço do Reino, animado apenas pelo Amor! Por isso, admiramos a atitude "do homem chamado Mateus" (Mt 9,9): da sua velha vida, que tinha ele para levar consigo? Do posto da cobrança, só havia que se erguer (que ressuscitar), deixando para trás toda a vida anterior e seguir Jesus.

3. O Amor que é o próprio Deus; o Amor que é fonte e origem de tudo o resto, de toda a realidade, é assim: exige transformação, caminho, entrega total e sincera. Jamais nos deixa como antes. Mas esse Amor é, também, de um modo não menos surpreendente, cheio de paciência e misericórdia: é o "jugo suave e a carga leve" que conhece as nossas dificuldades e as nossas incapacidades em lhe responder; que conhece o nosso pecado.

Dessa paciência, faz parte aquela não menos surpreendente capacidade de não desistir de ninguém. Como afirma a Segunda Carta de São Pedro: "Há um princípio que não deveis esquecer: que, para o Senhor, um dia é como mil anos, e mil anos, como um dia. O Senhor não se atrasa em cumprir a sua promessa, como julgam alguns. Pelo contrário, Ele é extremamente paciente para convosco e não quer que ninguém pereça, mas que todos cheguem ao arrependimento" (2Ped 3,8-9; cf. Rom 15,5). Por isso, ele é também o Amor que, julgando e detestando o pecado, se encontra sempre disponível para perdoar o pecador, oferecendo o recomeço, a vida nova.

Este tempo em que nos encontramos é, portanto, o tempo da misericórdia, o tempo da paciência, o tempo do perdão oferecido ao pecador. Não o tempo da indiferença e do relativismo, ou da confusão entre pecado e bondade, mas o tempo de uma nova oportunidade, para nós e para todos.

Oportunidade que se manifesta em cada dia e em cada ano na possibilidade de celebrarmos uma vez e outra, e outra ainda os sacramentos da Eucaristia e da Penitência, e o mistério da Liturgia. Oportunidade que não se compadece com a indiferença, com o viver olhando para trás, mas que nos faz a todos ministros da paciência e da misericórdia porque sacramentos vivos de Jesus, presença daquele Amor primeiro e originário.

"Caríssimos, se Deus nos amou assim, também nós devemos amar-nos uns aos outros. Ninguém jamais viu a Deus. Se nos amarmos uns aos outros, Deus permanece em nós e em nós o seu amor é perfeito" (1Jo 4).

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