Medos

Esta é aquela altura do ano em que os medos saem à rua. No final do mês temos o, já adotado, Halloween, em que as pessoas se enfiam em máscaras e desfilam por aí fantasiadas de vampiros, Franskenstein, lobisomem e outras figuras mitológicas modernas, há sempre a alternativa de enfermeira sexy, mas não sei onde está a parte assustadora desta fantasia.

O dia que antecede o dos mortos, neste caso o de Todos-os-Santos, fomentou uma aura misteriosa, inicialmente com o nome de Dia das Bruxas, posteriormente para o já mencionado Halloween. Essa aura foi levada ao expoente no final dos anos 70 com o sucesso de bilheteira com o mesmo nome. A história do filme é simples, um miúdo é internado num hospício foge, já adulto, e depois entra numa espiral de homicídios, não quero revelar de mais, e foi basicamente o primeiro grande slasher do cinema, isto tudo para dizer que o filme acaba por nos incutir, posteriormente, um medo fictício. Aliás muitas películas fazem isso, estamos no cinema e sabemos que aquilo é ficção, temos a certeza disso, mas, por vezes, quando saímos de lá acabamos sempre por olhar por cima do ombro e acharmos que vivemos no matrix.

Os medos reais, por seu turno, são dos mais básicos possíveis, baratas, aranhas, lagartixas, alturas, cobras, fogo, água, etc., passando para os mais difíceis de enfrentar, como agorafobia. Eu tenho sorte de não ter esse tipo de fobias, tenho respeito por alturas, nojo de baratas, mas medo não é algo que possa dizer que tenha.

Temos depois os medos imaginários, de ficarmos perdidos no meio de Alcoutim, sem nada à volta, ou de falharmos um penalti aos noventa minutos para decidir a vitória do Marítimo. Falo em medos imaginários, pois apoquentam-nos, mas conseguimos viver com isso, mesmo que não queiramos.

Os meus medos são mais filosóficos, atenção caro leitor, não estou a dizer que são piores que os seus – pode perfeitamente não querer ir parar a Alcoutim, e eu compreendo isso, eu também não quero que o leitor vá, o acesso ao JM-Madeira fica mais complicado e como é que depois temos esta conversa? – são diferentes. Não vou falar do receio da morte, acho que é algo que não faz sentido, acaba por ser natural e só temos de aceitar. Não, não me assusta a morte.

Assusta-me a mortalidade, conceitos semelhantes, mas ao mesmo tempo diferentes. A morte é o que acontece, mortalidade é o que nos leva até lá. Como é que uma pessoa comanda a sua vida até chegar lá? Não sou a típica figura de “amanhã logo vemos”, pelo menos para estas coisas grandes, e fico sempre a pensar no caminho que tenho de fazer para lá chegar, assusta-me fazer este caminho sozinho, apesar de em momentos gostar da solidão. Assusta-me não saber dançar, mesmo sabendo que o simples facto de abanar o corpo pode ser considerado uma dança. Assusta-me preocupar-me com o que não tenho controlo... Mas tenho mais medo da minha cabeça.

No fundo assusta-me ir para Alcoutim, sozinho, e ver os dias passar.


Nota: Sei que muitos de vós estavam à espera de algo relacionado com as eleições do Marítimo. Lamento-vos desiludir, mas não esperem da minha parte contribuição para a polarização disso, depois de 22 de outubro continuarei a ser do Marítimo, continuarei a pagar as quotas, continuarei a ser interventivo, quando tiver de ser, independentemente de quem vencer as eleições.