A máscara enquanto símbolo

“Uma pandemia é uma questão social, não é uma questão médica.”

Esta afirmação é de Jorge Torgal, professor catedrático e reputado especialista em saúde pública e epidemiologia, que tem sido uma das vozes mais críticas das medidas extraordinários de confinamento em Portugal (continental).

Não se trata, propriamente, de um falso médico que difunde vídeos manhosos no YouTube ou áudios alarmistas no WhatsApp. Não é um negacionista em luta contra os homens-lagarto canibais que pretendem controlar a humanidade através de vacinas 5G.

Contudo, tanto esta como outras personalidades que têm vindo a tomar posições críticas das medidas governamentais, estão a ser tratadas como se de negacionistas se tratassem, ou acusadas de estar a beneficiar “lobbies” (dos laboratórios, das farmácias, da saúde privada, etc.). Ou seja, nas barricadas onde, há um ano, se posicionavam os defensores da ciência contra os teóricos da conspiração, temos hoje os defensores de abordagens mais sensatas e socialmente responsáveis, fundamentadas na evidência científica, contra os verdadeiros “lobistas”, os do Governo da República, que tudo fazem para descredibilizar quem contesta as suas medidas avulsas, arbitrárias e maioritariamente inúteis.

Por cá, ressalvando as muitas diferenças (de escala, de incidência, de controlo dos acessos, mas também de resultados, há que reconhecê-lo), também há medidas duvidosas. O maior problema tem sido a deficiente comunicação e justificação das decisões. Após dois anos a lidar com esta ameaça nas suas vidas, impossibilitadas de fazer planos de médio ou longo prazo e ansiosas por recuperar algo semelhante à antiga normalidade, é fundamental que as pessoas entendam a razão por que lhes é pedido que façam sacrifícios, cumpram regras ou evitem riscos. Não basta fazer cara de mau e disparar que “é assim e acabou-se”. Não se resolve com um “polícia bom” a felicitar “os meninos responsáveis que se portaram bem”, enquanto o “polícia mau” brada que “os meninos maus serão exemplarmente castigados”.

Há que explicar muito bem os horários de recolher obrigatório, a sua utilidade, pertinência e suporte legal; há que explicar muito bem a trapalhada do certificado COVID no sítio do SNS, que muitas pessoas não estão a conseguir obter; acima de tudo, há que explicar muito bem a questão das máscaras.

As máscaras sempre foram o símbolo desta pandemia. Já foram representadas como algemas e açaimes, mas também como muralhas. No auge da contestação às medidas de confinamento, um pouco por todo o mundo, a máscara identificava os carneiros/cordeiros/outros animais dóceis, obedientes e facilmente “arrebanháveis”, por oposição aos corajosos e indomáveis lobos que as rejeitavam (espero que a ironia seja óbvia). Vista de outro ângulo, a máscara serviu para representar a opção pela responsabilidade social em detrimento da liberdade individual (na maior parte dos casos é apenas o mais básico egoísmo).

Ao contrário de outras medidas que têm impacto directo na vida (e no bolso) das pessoas, como os isolamentos profiláticos, os confinamentos, as limitações à circulação, entre outras, a máscara é apenas um pedaço de pano ou tecido (não-tecido) que se prende às orelhas. Incomoda, mas não mata. Isoladamente, é inútil. Usada por todos, nas circunstâncias adequadas e em conjunto com o distanciamento social e a higiene das mãos, salva vidas e impede que o vírus alastre.

Porém, se faz sentido continuar a usá-la em ambientes fechados sem distanciamento, é absolutamente desnecessário manter a obrigatoriedade (ou será recomendação?) do seu uso ao ar livre, principalmente quando em movimento.

Que se diga, claramente, que o uso de máscara em espaços abertos é uma opção individual dos cidadãos, exceptuando situações de ajuntamento. Ou, então, que se exerça apertada fiscalização ao cumprimento das normas, se diversas.

Não se pode é afirmar que o uso de máscara é para manter, permitindo-se que os turistas que nos visitam se passeiem, muitas vezes em bando, quase sempre sem máscara, olhando-nos como se fôssemos uma triste e “very typical” singularidade local. São bem-vindos, precisamos deles, mas não se pode passar a imagem de que têm um estatuto diferente.

É que se a máscara passar a ser o símbolo dos “vilhões” obedientes, é meio caminho andado para a coisa correr mal…