Admissão de culpa

Sim, podia fazer como tantos que aproveitam os minutos multiplicados da fama súbita e frívola que redes sociais e reality shows agora proporcionam para vos chocar, em forma de obscenidades e outras vulgaridades, com as suas revoltas.

São rebeliões contra tudo o que de errado existe neste mundo, mas nunca com eles.

São condenações sumárias das limitações dos outros, mas nunca das próprias.

São róis de lamúrias sobre todas as injustiças que já sofreram, mas nunca das que cometeram.

São só soluções fáceis para problemas que mais ninguém conseguiu resolver, mas que nunca se atrevem a implementar.

São “putas que pariu” e “fodasses” tão indignados para que possam, de consciência já tranquila, deixar tudo na mesma.

E sim, podia fazer como todos eles. Podia, mas escolho não o fazer.

Decidi ao invés aceitar as limitações humanas, começando pelas minhas próprias imperfeições.

Mas sem deixar que isso seja desistência de continuar a procurar melhorar o que puder ser melhorado.

Mas nunca com os histerismos, as gritarias ou as soluções pseudo-milagrosas com que hoje se tenta envenenar a opinião pública.

Todas essas são meras formas de ruído que servem para calar as palavras de paz, esperança e perseverança.  Tudo o que pretendem é dar largas a uma fúria e frustração que vem de dentro de quem não está de bem consigo próprio, sem que daí nada de bom ou construtivo advenha. Aparentemente não querem apenas estar sós com a sua miséria e tudo fazem para arrastar para uma semelhante existência de desventura quem assim consigam convencer.

Há hoje, por isso, um clima de guerra e ódio que paira no ar mas, se as guerras e os ódios purgassem a humanidade, seríamos por esta altura da nossa existência comum já todos santos.

Em verdade os anais da história estão recheados de narrações de conflitos e batalhas e continuamos onde sempre estivemos: presos aos nossos medos, apavorados com tudo o que é diferente e temerosos do que nos espera.

Não me tomem por crédulo ou utopista pois nunca dou mais do que as duas faces, até porque afinal são as únicas que tenho para dar.

Não me tomem por crédulo ou utopista, repito.

Mas a verdadeira mudança começa em nós mesmos.

Uma falha corrigida, uma ofensa contida, uma mão estendida. Um dia de cada vez, todos os dias se tiver de ser. Insistir e repetir e melhorar e evoluir. Incansavelmente.

E só quando já nada em nós houvesse mais para corrigir, poderíamos então começar a apontar dedos.

Mas se escolhermos adotar esta metodologia pela busca contínua da inalcançável perfeição não restará nunca tempo para apontar dedos, a não ser a nós próprios!