Desde que o fracasso lhe subiu à cabeça

O início de um novo ano é inevitavelmente – apesar do sarcasmo, do ceticismo e do derrotismo de alguns – tempo de ponderar, projetar e assumir outros caminhos. Em 2021, esse ciclo acontece ainda mais intensamente, depois da experiência da pandemia e de termos sido dolorosamente recordados dos nossos limites. Mas convém que o ano não seja apenas desenhado a partir da experiência de fracasso e de doença.

O título desta crónica é “roubado” a uma compositora e cantora brasileira que admiro muito, Verônica Ferriani, e também dá título a uma música que ouvi centenas de vezes. “Leva tudo tão a sério/Segue errante nos velhos esquemas/E vem dizendo que perdeu a fé/Mas nunca teve fé a perder”.

Pensei muito nela no início deste ano. Por algum motivo que desconheço, muitos pensam que podemos recomeçar a vida sem partir de nós. Pior: deixando de ser o que somos. Pessoalmente, acredito que não há novos caminhos se descartarmos tudo o que fomos, embora isso não signifique, obviamente, errar eternamente em “velhos esquemas”.

O essencial é partir do que temos, não das sombras e ilusões que fingimos ser, mesmo que seja para “inglês ver”, como se diz entre nós. Porque cada vez mais me convenço que uma das grandes causas de tristeza contemporânea é a sucessão excessiva de dias em que não temos nada a dizer a nós mesmos – como se tudo tivesse de vir de fora, dos estímulos incessantes da sociedade em hiperligação.

Há outra passagem da música de que gosto muito: “Só dorme bem/Quem não tem imaginação”. É uma capacidade incrível que temos, por sermos humanos: pensar em coisas que ainda não são ou mesmo que nunca serão. Quem pensaria que em 2021 a preocupação da humanidade seria encontrar uma vacina para combater uma pandemia? Porém, cá estamos. E conseguimos.

O mundo tornou-se realmente muito ameaçador e menos risonho, com muitos motivos para perdermos o sono. Mas acredito que somos capazes de imaginar mundos melhores e não apenas destruição, inimizade, desejo de poder ou domínio.

Já aqui o escrevi: temos de voltar a saber habitar a escuridão. Urge voltar ao mais fundo de si mesmo, onde habitam novas possibilidades de ser, talvez invisíveis, mas não imaginárias. Sem excesso de holofotes, de imagens e ruídos, é preciso encontrar outros caminhos para que possa ficar “tudo bem”. Demos espaço ao que não se vê e não se ouve, ao que não se pode quantificar, produzir ou consumir. Porque o silêncio cuida do coração.