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Artigo de Opinião

silviamariamata@gmail.com

11/02/2024 08:00

Naquele tempo, só se ia à cidade, quando era mesmo preciso. Aconteceu, claro, eu ir algumas vezes mais minha mãe e íamos no horário da Boa Nova. Minha mãe gostava de ir à frente para a gente apanhar um arzinho, quando o bilheteiro abria a porta para entrar alguém. De mais a mais, atrás, os homens fumavam e aquilo embrulhava-me o estômago, a pontos de eu quase rabiçar, branca como um papel e olheirenta, nos dizeres de minha mãe.

Não sei se era na paragem do Caminho do Terço, no Transval, ou no Cabeço de Ferro, que entrava um homem de meia idade que não tinha uma perna do joelho para baixo, mas sim uma vara a fazer as vezes. Nunca percebi que maquinismo era aquele que ele engendrara, nem como aquela vara se segurava no joelho. Ele usava umas muletas de madeira, que ponha debaixo dos braços para se apoiar e poder se deslocar. Ora, quando ele entrava, muito humilde, pesaroso e calado, os olhos verdes a olhar para o lugar do chofer, a pedir clemência, toda a gente começava a rir e a escarnecer com grande alarido. Minha mãe avisava-me: “Não se ri. Qualquer pessoa pode ficar assim.” E eu não tinha mesmo essa vontade de ficar alegre ao ver aquela desgraça toda. O chofer levantava-se com cara de inimigo e ia mostrar que tinha força e mais o bilheteiro puxavam-no como se ele fosse um trambolho para dentro do horário. E as pessoas sempre a rir e mais riam com os empuxões que lhe davam, sem o triste atinar onde e como se sentar com aquela vara tesa a fazer as vezes de uma canela. “Avia-te, seu manco desinfeliz, que por causa de ti, eu ainda vou perder um quarto de dia de trabalho!” Certamente, à noite, o desinfeliz, sozinho e aliviado no seu canto, pensará que aquele atrevido, um dia, também na velhice, lhe cairão os dentes todos e ele não poderá escarnecer assim dos outros! Espera-te! A Divina Providência encarrega-se!

Ora, aqui há dias, pus-me a reler o livro Histórias de Mulheres de José Régio e dei por mim parada na palavra “desinfeliz”. Claro está que desenterrei de dentro de mim a história do aleijado do lado do Caminho do Terço ou dos arrabaldes do Cabeço de Ferro. Nesta história de José Régio, com o título Maria do Ahú, uma mulher repisava a filha, dizendo-lhe: “És a vergonha da minha cara, desinfeliz!”

Aí está o que um desinfeliz tem de aguentar! Devem ser muito resistentes, os desinfelizes! A verdade é que pela vida fora, encontramos seres assim, na mó de baixo, por isto ou por aquilo. “Não se ri”, lembro-me eu do que dizia minha mãe. O infortúnio pode chegar à nossa casa. Mas também é verdade que ninguém sabe a força que há dentro do peito de um desinfeliz. E por falar nisso, lembrei-me de Frei Nélio ter dito um dia, a modos de metáfora para que os pecadores entendessem, que a chuva muito intensa e torrencial, quando cai dos telhados, bate com grande força no chão, e precisamente por bater assim, o respingo que faz é enorme. Assim acontece com os sujeitos que caem duma grande altura: quando se levantam, o salto que dão é tão alto como o da chuva, sobrevivem limpos e renovados, cheios de uma força qualquer desconhecida.

Outra história de desinfelizes é a história que a minha amiga Deolinda me contou: havia uma senhora que em falando conversas à balda do dia a dia, disse à sua criada: “Ai Maria, quando a sorte é má e adversa, nada vale ao infeliz!” A criada apropriou-se do dito e era vê-la a atirar à sua patroa: “Ai minha senhora, quando a sorte é maniversa, nada vale ao desinfeliz!”

Aos desinfelizes, basta-lhes acreditar no poder de um novo astro, que nasce cá dentro, não se sabe onde, mas nasce, que fala baixinho dentro do coração e bate tão forte como a chuva.

Já agora, vale a pena ler a Maria do Ahú de José Régio.

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