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Artigo de Opinião

Psiquiatra

25/05/2022 08:00

Tantas as maravilhas do mundo moderno e as limitações humanas continuam as mesmas. Se aquilo que podemos fazer tem-se mostrado com poucos limites, não só de conquistas, mas também de destruição, a nível individual mantemos os mesmos limites. Adoecemos, sofremos, mentimos, abusamos, ... Acreditamos no imperialismo do "eu tenho de ser feliz" e esquecemo-nos do "como", "por quanto tempo", "há custa do quê e de quem".

Individualmente percebemos melhor as limitações do que quando pensamos na humanidade no geral. Temos um tempo limitado. Temos recursos limitados. Temos uma biologia limitada. Ao vivermos depressa e a aproveitar melhor o tempo, gastamos mais recursos. Ao gastarmos mais recursos, outros ficam sem esses recursos e também o nosso corpo é desgastado mais depressa. A nossa limitada biologia sofre e adoece.

Para impedir a destruição do nosso ser precisamos de alimentos de diferentes formas para nos mantermos saudáveis. Para a biologia precisamos de nutrientes saudáveis, pouco processados e com o mínimo de pesticidas e outros produtos. Para as nossas emoções precisamos de momentos, de pessoas, de atenção, mas também de estar e de dar. Para impedirmos a destruição da humanidade no geral, precisamos de querer menos, de gastar menos e de dar mais. Enquanto quisermos mais do que temos para dar, acabamos inevitavelmente nas guerras da escassez. Escassez de dinheiro, recursos, influência e de bom-senso.

Na mentira perdemos.

Oiço com pesar as histórias de pessoas que acreditam que enganaram os seus médicos. Orgulhosos. Tanta alegria a contar isso aos familiares e amigos. Mas a quem é que mentiram? Quem é que sofre com essa mentira? O tempo do profissional foi pago. Se foi pago pelo estado ou pelo próprio, por que não aproveitar e melhorar a sua vida?

Quando criticamos ou comentamos negativamente os outros perdemos.

O estigma começa assim e assim não tem fim. Recentemente um amigo sofreu um acidente. Na ortopedia foi visitado e tantas pessoas desejaram as melhoras, apoiaram. Na sua ironia desabafou que quando esteve com um episódio depressivo ninguém apareceu. Parece que a doença mental se pega mais do que as pernas partidas.

Perdemos quando criticamos porque as pessoas com que o fizemos ou que receberam essas críticas, não estarão lá para nos apoiar quando precisarmos. Criámos tantas críticas e maldizeres que se transformaram num muro sem fim a separar-nos das emoções positivas dos outros. Esse é o muro do estigma que nos impede de cuidar, de ouvir e de receber.

Enquanto estivermos fechados nas nossas ideias preconcebidas, no julgamento dos outros, não temos liberdade e não damos liberdade. Vivemos todos limitados. Assim o é nas relações humanas, como na compreensão que não somos sem o nosso corpo. O nosso corpo com falhas, com doenças passadas, presentes ou futuras. O nosso corpo limitado adoece. A nossa mente faz parte desse corpo, dessa biologia e adoece. Não devemos cuidar tanto da nossa mente como das nossas pernas? Quando vamos deixar de julgar os outros, quando vamos deixar de despedir, de dar menos ou de valorizar menos quem sofre? Quem tem coragem para pagar o mesmo quer a pessoa trabalhe ou fique doente em casa?

Acabar com o estigma é dar e valorizar o mesmo, com ou sem doença. E se as doenças que falamos têm prevalências perto dos 30% em toda a humanidade, muitas com taxas de mortalidade de pelo menos 10%? Ficamos parados ou fazemos alguma coisa? Se for um vírus fazemos tudo. Se for uma depressão ... talvez um dia.

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