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Artigo de Opinião

silviamariamata@gmail.com

29/08/2021 08:00

São quatro horas da manhã e São João de Latrão já está de pé! Vão as famílias se acordando uma às outras e os homens acartando tudo para a estrada da Boa Nova, junto à quinta dos Estanquinhos. É para ficar de um dia para outro na Ponta Delgada e é certo ter de levar a casa às costas, sem faltar a cozinheira a petróleo que é preciso espevitar. A viagem é longa, cansativa, mas divertida. Pelos caminhos perigosos à beira-mar entre Porto Moniz e São Vicente, o medo espreita, mas canta-se "Senhor chofer, por favor, ponha o pé no acelerador"; "A malta lá de trás está cheirando a água rás"; "A malta lá da frente está cheirando a aguardente" e levantam-se as mãos a apontar para a frente e para trás. Nos furados, apupa-se "uuuuuuuuu". Estreia-se uma roupa nova e um chapéu e a alegria é total, não faltando o acordeão, os bailaricos e os despiques improvisados na hora.

Em setembro, as vindimas são um acontecimento, quase um ritual solene na nossa casa, porque o vinho é para ser provado no telheiro só no dia de São Martinho, uma devoção de santo bem lembrado! Perto da data, meu pai lembra-se sempre da forma esquisita e tresloucada como a malta jovem agora dança na fonte, na semana das festas de São João. "Aquilo é que é bom aproveitar para bailar dentro do nosso lagar"! Mas minha mãe diz "Tu estás louco, pequeno! Eles ainda te rebentam o lagar e vai ser maior a perca do que o lucro". De modo que, meu pai, sem filho varão para ajudar e com cada um por ali em suas casas nas suas agonias e trabalhos, se contenta sozinho virando daqui e dali as uvas no lagar.

Num setembro também distante, mas não tão pretérito perfeito, porque eu já conduzo, meu pai diz assim "Minha filha, vamos à serragem na reta da Camacha. Passa-se aquela estação das moscas e chega-se lá. O mestre Aldónio disse que lá arranjam bem…", - e aqui, de verdade, eu não sei o que é que eles arranjam lá bem, mas é qualquer apetrecho para pisar as uvas no lagar. Lá vamos, meu pai a me dar lições de condução, "faz assim e faz assado". Sim, senhor. Em chegando, paro o meu "renou", meu pai diz que está bom e vamos por lá dentro em cima de farpas da madeira. Um homem de idade vem de lá para cá e diz "Olha quem vem aqui!" E meu pai firma-se bem nele e responde "Olha o 51" e o outro volta "Olha o 53"! E a beleza do abraço que ali nasce, ao fim de tantos anos sem se ver, é o de dois grandes amigos a altear, nas Férias Grandes, joeiras na eira. Na verdade aqueles dois velhos se abraçando são dois homens moços vivendo no RG3 em São Martinho o tempo duro de soldados a assentar praça.

Setembro, portanto, é o mês das vindimas. O jovem é aproveitado para apanhar as uvas no alto das serras para ajudar o pai. Ao fim da tarde, salta pedregulhos e caboucos, desvia-se do bruxedo enrolado nas canas vieiras, volta a casa, cansado e esgotado, os dedos da mão dormentes e vincados pela força e pressão da tesoura, a alfaia da jornada!

Traumas? Não fazem parte da moda. Obrigada pela vida!

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