Outra vez a guerra

O filho da puta não é deste mundo, pensou o Lagarto. Já o avisei tantas vezes para não pôr a música alta e o gajo não me ouve. Hoje dou cabo dele. Levantou-se. Vestiu os calções e a camisola camuflada. O Lagarto gosta muito de usar roupa camuflada, em memória dos velhos tempos. Calçou as botas. Chamam-me Lagarto porque não tenho medo de cobras nem de lagartos, disse entre dentes.

 

A mulher, uma jovem negra de pele luzidia, olhava-o apática enquanto ele se vestia e ocorreu-lhe a imagem de uma bola. O Lagarto parecia uma bola, por causa daquele estômago enorme. Uma bola de basquetebol, pensou a mulher, recordando os tempos em que jogava com as amigas no campo da missão. Além disso, o Lagarto era pequenino, media apenas um metro e cinquenta, tinha a cara redonda e os olhos como os de um chinês. Quando sorria, os olhos ficavam ainda mais chineses e todo ele parecia mesmo uma bola.

 

– O filho da puta está a meter-se com um gajo que andou nos comandos – disse o Lagarto, como se falasse sozinho. – O filho da puta está a meter-se com um gajo que comeu a puta da guerra.

 

Abriu a porta do quarto.

 

– Eu já venho – disse.

 

Era o terceiro dia consecutivo em que acordava estremunhado, ao raiar o dia, por causa da música em casa do vizinho, altíssima, barulhenta, horrível, e aquilo fazia-o sentir-se outra vez debaixo de fogo, outra vez no mato, outra vez na guerra.

 

Saiu e abeirou-se da cerca de bambu que separava as casas. Esperou que a batucada terminasse. Depois, gritou:

 

– Ó filho da puta, anda cá fora que quero falar contigo.

 

Fez-se silêncio. Ninguém apareceu. E, de repente, arrancou uma nova música, com o volume ainda mais alto.

 

O silêncio fora curto, quase nada, mas suficiente para o Lagarto recordar, em flash agudo, a missa a que o seu pelotão tinha assistido antes da última operação especial, aquela em que arrasaram uma aldeia inteira, mataram toda a gente e jogaram à bola com a cabeça das crianças. Eles eram obrigados a ir à missa antes de cada operação, como se a missa fizesse parte do equipamento de combate. Na última, o padre tinha dito uma coisa deveras estranha. Disse assim:

 

– Que as aves vos acompanhem.

 

Foi o que o estupor do padre disse.

 

O Lagarto ficou a pensar que ele se enganara. Em vez de dizer “Que Deus vos acompanhe” disse “Que as aves vos acompanhem”, pois sabia-se que o padre era maluco por aves. Andava sempre com um papagaio ao ombro, como um pirata, um papagaio que sabia falar, até o levava para a capela, o cabrão do padre, e o papagaio gostava muito de dar à língua com os soldados.

 

– Vai-te lixar, maçarico! – Dizia o papagaio, esganiçado. – Vais morrer hoje, maçarico!

 

Eles riam a bandeiras despregadas, como se estivessem numa tenda de circo e não num teatro de guerra.

 

Depois, quando já se encontrava há vários dias no mato, o Lagarto admitiu que provavelmente o padre usara as aves como metáfora, já que é bem conhecida a relação estreita, vamos dizer íntima, entre Deus e as aves. A começar pelo Espírito Santo, que é uma pomba, uma pomba branca, facto que se afigura desconcertante, pois a pomba, mesmo sendo branca, é um animal interesseiro e responsável por muita sujidade nas cidades, sobretudo ao nível das estátuas, e depois as autarquias são forçadas a gastar imenso dinheiro em limpezas, dinheirinho esse que vem todo do erário público, claro.

 

Por outro lado, pensava o Lagarto com a G3 entre as pernas, também é verdade que as pombas são animais de paz. As que o seu primo criava naquele tempo, por exemplo, fugiam sempre que havia discussões em casa, não estavam para aturar brigas de gente, e algumas nunca mais voltavam, as putas das pombas.

 

Anos mais tarde, ele fez o mesmo. Fugiu da guerra e nunca mais voltou a casa.

 

– Ó filho da puta, anda cá fora que quero falar contigo – gritou outra vez, já com uma pedra na mão.