O Culto do Silêncio

A 27 de setembro de 1968, quando Marcelo Caetano se tornou Presidente do Concelho na sequência de uma lendária queda de cadeira, chegou a Portugal uma leve brisa que parecia anunciar o sonho de uma noite de primavera, grávida da esperança num país mais livre e mais democrático. No entanto, a história diz-nos que os regimes autoritários podem reformar-se, mas raramente mudam verdadeiramente a partir de dentro e, rapidamente se percebeu que a aparente primavera era afinal inverno, o mesmo pesadelo, com novas personagens, de ar mais polido e de roupas menos cinzentas, mas não menos repressivas.

Foi apenas cinco anos e meio mais tarde, a 25 de Abril de 1974 que Portugal rompeu com o seu passado recente e iniciou um novo caminho em direção à concretização desse sonho de Liberdade, Paz e Democracia.

Comemorar o 25 de Abril é, por isso, motivo de celebração. Celebramos a Liberdade, o Direito à Palavra, o direito à palavra escrita e publicada às claras, à palavra dita, em público, em voz alta - e a Autonomia que nos é tão cara.

Mas é, também, uma boa altura para recordar o que foi viver em ditadura, sob o jugo de um partido único, num regime político de monocasta, numa monocultura de ideias monocromáticas e monofónicas, que não estimava que as pessoas falassem livremente de política ao vivo, a cores e em stereo. É precisamente por uma obrigação para com a memória de quem sofreu a tortura, de quem morreu às mãos do regime e pelo respeito às gerações que nasceram há menos de 50 anos, que temos o dever ético e moral de assinalar condignamente o 25 de Abril.

Argumentos de que o 25 de Abril não é ou não deve ser partidário, nem político, não podem servir para justificar o silenciamento, pelo segundo ano consecutivo, dos partidos representados na Assembleia Municipal, na sessão comemorativa organizada pela Câmara Municipal do Funchal; apenas acentuam a necessidade de preservação e divulgação dessa memória histórica.

Esta deriva populista, esta tentativa de menorizar e desprezar o papel dos partidos, todos, incluindo mesmo aqueles que suportam e justificam o lugar que ocupam (ambos os constituídos usando os direitos políticos que Abril nos devolveu), é entristecedora. Que quem suporta o executivo se limite a assentir cúmplice e obedientemente, em silêncio, é preocupante. A democracia é um sistema de governo espetacular, mas não se pode reduzir a comemoração a um concerto, um espetáculo, um sarau, em que a única participação possível se resume ao sorriso e ao aplauso. A democracia quer-se competitiva, participativa e, principalmente, participada.

Mas o culto do silêncio não se fica por aqui.

Depois de um “desabafo” de um ex-governante, ex-dirigente partidário, ex-deputado regional, nacional e europeu, ex-candidato à liderança do seu partido, em que aventou a hipótese de ter sido dispensado de funções governativas por pressão exterior ao governo, qual acha que foi a reação de quem o dispensou? Se pensou em “silêncio” ou “desvalorização”, adivinhou.

A oposição teve de usar o direito potestativo para forçar a criação de uma CPI, limitada a todos os mínimos legalmente admissíveis em termos de tempo, número de inquiridos, documentos solicitados e fornecidos e conclui-se extraindo valor do silêncio de quem não se pôde ouvir.

As conclusões foram as esperadas, mas todo o processo deixou a descoberto a estratégia de avestruz que visa apenas desvalorizar, desmoralizar, calar quem discorda, porque se ninguém falar, ninguém se pode queixar. E se ninguém se queixa, tudo está bem, não é?

Não, não é! O culto do silêncio que tudo esconde à espera que passe, que ninguém note, que se esqueça, aproveita apenas a uma dúzia de pessoas a quem adoçam a boca à custa dos amargos de muitas outras.

Ironicamente, a resposta pode ser dada com o grito silencioso do seu voto. Nas próximas eleições escolha uma verdadeira alternativa e deixe cair quem, anuindo silenciosamente, deu a mão a quem sempre os tentou calar.

É tempo de Mudar. O culto do silêncio tem de acabar, Madeira.