Da revolução da epigenética: a neurociência da pobreza

No final da primeira semana deste mês de janeiro, foi tornado público o “EP Autumn 2022 Survey: Parlemeter”. No Eurobarómetro especial do Parlamento Europeu (link: https://europa.eu/eurobarometer/surveys/detail/2932), detive-me na leitura e análise, em particular, da ficha de Portugal. Nesta, e de acordo com os dados tratados, resultantes das 1028 entrevistas, diretas e pessoais, realizadas, há, por parte dos portugueses, uma grande preocupação com a subida do custo de vida, a pobreza e a exclusão social, assim como, com as alterações climáticas.

Estas, são, de facto, as matérias que mais preocupação levantam. Pior, na ficha nacional de Portugal, o Parlómetro destaca ainda a grande insatisfação destes inquiridos com as medidas nacionais aprovadas até ao momento para combater a subida dos custos de vida. Mas não é só. Quando questionados sobre os valores e prioridades do Parlamento Europeu, surge à cabeça a proteção dos direitos humanos, como um dos valores a priorizar, logo seguido da solidariedade entre os Estados-Membros da União Europeia e entre as suas regiões. A questão da Democracia surge com o mesmo peso.

Ainda na mesma ficha, os portugueses revelam ainda outras inquietações, tais como: a igualdade entre homens e mulheres, a luta contra a discriminação e em prol da proteção das minorias e a solidariedade entre os países da EU e os países pobres no mundo. São percentagens interessantes e que a todos nós deviam preocupar. E, sim. Por mais estudos e publicações que se façam, a verdade, aquela com que diariamente nos confrontamos, é que a luta contra todas as formas de pobreza, deveria ser o tópico prioritário, a questão essencial a ser tratada, por todos nós, a começar pelo Parlamento Europeu.

A propósito da pobreza, e já esta semana, num texto assinado por Henrique Raposo, cronista do semanário “Expresso”, revela que através da revolução da epigenética – uma nova neurociência da pobreza –, a miséria extrema é, e aqui confesso que fiquei surpreendida, pelo desconhecimento científico sobre a mesma, «a manifestação de um grupo de doenças mentais». A peça jornalística é longa, mas aconselho vivamente a sua leitura. Pela atualidade, pela questão em si e pelas novas perspetivas, que devemos acompanhar. O que está aqui em causa, antes de mais, é uma revolução cognitiva sobre a pobreza. Se quisermos ir mais longe, sobre «a tensão moderna entre a genética e o livre-arbítrio e sobre a tensão clássica entre espírito e matéria». E, não. Não é poesia. O que a neurociência da pobreza destaca, estudo após estudo, é uma realidade que nos diz, entre tantas outras certezas, que qualquer ser humano que nasça, cresça e seja criado no stress crónico da pobreza, é diferente, química e neurologicamente, de uma pessoa que não tenha crescido num ambiente pobre. A pobreza é uma sucessão de traumas. Está integrada no ADN. Tudo isto começa na infância. Na vida intrauterina. Se queremos combater a pobreza, temos que colocar na prateleira as ideologias dos séculos XIX e XX e dar uso a esta nova ciência.

Estamos a assistir a uma revolução científica. Com grande impacto: moral, religioso, político e social. É necessária uma boa dose de sensibilidade psicológica para compreendermos a psicose da pobreza. Para pensar, sem entraves. Sobretudo, sobre o Estado Social. A política social e a política económica. Vamos colocar em prática o que sabemos ao caminharmos para a terceira década do século XXI.

Um feliz Ano Novo para todos.