Sermão aos Peixes de Santo António

No tempo de Santo António, os hereges cátaros, que se julgavam puros de todas as manchas, recusavam escutar Santo António temendo não saber responder às suas perguntas, na cidade de Rimini, no norte da Itália. O Santo pensou dirigir-se aos peixes que os cátaros julgavam puros e santos. E, aconteceu um autêntico milagre, os peixes reuniram-se em filas ordenadas e escutaram, escutaram, atentamente, o Santo.

O Padre António Vieira, conhecido como o “Imperador da língua Portuguesa” foi um dos mais brilhantes oradores sagrados da língua portuguesas e brasileira. Em 1614 foi para o Brasil. Estudou num Colégio de Jesuítas, com 15 anos, entrou na Companha de Jesus. Pronunciou o primeiro sermão quando tinha 25 nos de idade, sendo ordenado padre em 1634. Veio a Portugal, mas dentro de breve tempo retornou ao Maranhão, onde a situação entre os patrões e os negros era muito agitada e injusta.

O Padre António Vieira saiu em defesa dos plebeus que são os mais pequenos e os que menos podem perante os poderosos da República. O jesuíta tomou a legenda de Santo António aos peixes e aplicou-a à situação vivida no Maranhão, escrevendo um dos seus mais célebres e imortais sermões.

“Não só vos comeis uns aos outros, senão que os grandes comem os pequenos. Se fosse pelo contrário, era menos mal. Se os pequenos comessem os grandes, bastaria um grande para muitos pequenos, mas como os grandes, comem os pequenos, não bastam cem pequenos, nem mil para um só grande. E não só diz que os comem de qualquer modo senão que os engolem e devoram”.

O tema da justiça e divisão de bens tem uma atualidade na história da humanidade que percorre toda a Bíblia e, infelizmente, corrói os nossos tempos. O Padre António Vieira continua: “Vede um homem desses que andam perseguidos de pleitos ou acusado de crimes, e olha a quantos o estão comendo? Come-o o meirinho, come-o o carniceiro, come-o o escrivão, come-o o solicitador, come-o o advogado, come-o o testamenteiro, come-o o julgador, e ainda não está sentenciado e já está comido”.

Outro tema universal é o da fome, o pão, e preço dos alimentos e combustíveis, preços altos, mas também especulação e falta de habitações. Acentua o Padre António Vieira: “Porque os grandes que têm o mando das cidades e das províncias não se contentam a sua forma de comer os pequenos um por um, ou poucos a poucos, senão que devoram e engolem os povos inteiros. E de que modo os devoram e comem? Não como os outros senão como, o pão. A diferença que há entre o pão e outros comeres é que para a casa há dias de carne e para o peixe dias de peixe e para as frutas diferentes meses do ano, porém o pão é comer de todos os dias, que sempre e continuamente se come, e isto é o que padecem os pequenos. São o pão quotidiano dos grandes; e assim o pão se come com tudo assim com tudo e em tudo são comidos os miseráveis pequenos.”

António Vieira é um genial observador: “Vedes vós todo aquele bulir, vedes aquele andar, vedes aquele concorrer às praças e cruzar as ruas, vedes aquele subir e descer calçadas, vedes aquele entrar e sair sem quietação nem sossego? Pois tudo aquilo é andarem buscando os homens como hão-de comer e como se hão-de comer”.

“Que maldade é esta à qual Deus singularmente chama maldade, como se não houvesse outra no mundo? A maldade é comerem-se os homens uns aos outros, e os que a cometem são os maiores, que comem os pequenos.”

Termino com a frase do Apocalipse: “Até quando Senhor tardarás a fazer justiça, vingando o nosso sangue contra os habitantes da terra?”