Ponto final

Em setembro de 2002, escrevi quatro pequenos textos, nos quais me debrucei sobre o Selvagem Superior (brutus regionalis). Disfarçados de descoberta científica, estes textos não eram mais que uma paródia à falta de respeito e civismo ostentados por muitos madeirenses, nas mais diversas situações e cenários.

Em simultâneo, estabeleciam um paralelo pouco lisonjeiro com o Povo Superior, exaltado por um jardinismo ainda no seu auge. Fui enviando as minhas “Crónicas do SS” para as Cartas de Leitor do “Diário de Notícias”, que as publicou. Algum tempo depois, para minha surpresa, recebi um telefonema do Agostinho Silva, convidando-me para ser articulista de opinião do Diário. Aceitei com entusiasmo e, em janeiro de 2003, iniciei uma colaboração assídua, quase sempre com periodicidade mensal. Nos 15 anos que se seguiram, para além de escrever opinião, também tive a oportunidade de “fazer rádio” - a “Lavandaria Ideal” na TSF (com o Nuno Morna e o José Júlio) e humor – o suplemento “Espada com Banana” (com os dois camaradas atrás referidos, a que se juntou o João Márcio de Matos).

Em meados de 2017, por motivos que para aqui não são chamados, dei por terminada a minha relação com o Diário e passei a colaborar com o JM. Nesta casa, escrevi opinião com periodicidade semanal, quinzenal e, nos anos mais recentes, uma vez por mês. Nestes cinco anos, tive a satisfação de voltar à rádio (JMFM) através do “Planestratégico”, em parceria com o João Márcio, com quem inventei e confeccionei o “Polvo Livre”, nas páginas centrais do JM dominical, até sermos “despachados” por… motivos que também agora não interessa escalpelizar. 

Temporadas de rádio e humor à parte, o que sempre se manteve, ao longo destas duas décadas, foram os artigos de opinião.

Neste exercício de cidadania (não remunerado), mantive sempre os mesmos princípios: pensar pela minha cabeça, assumindo as minhas ideias e convicções; evitar a banalidade e a argumentação básica; usar uma escrita cuidada, fazendo pensar sem ser hermético; e dar o melhor uso possível à ironia e ao sentido de humor.

Agora, chegou a hora de colocar um ponto final nesta caminhada. Já tinha tomado a decisão de “reformar-me” em janeiro do próximo ano, quando se completassem 20 anos exactos desde a publicação do meu primeiro artigo. Mas, enfim, de que serve prolongar o estertor do que já está moribundo? Na verdade, não vislumbro utilidade nem detecto necessidade de continuar. Morreu o prazer de escrever e de partilhar a opinião, de dar um ângulo diferente aos assuntos, de incentivar o pensamento crítico ou apenas de provocar um sorriso ou um breve momento de boa disposição. A percepção que tenho é que não fará qualquer diferença (ou seja, exceptuando o meu pai e alguns – poucos – amigos e leitores fiéis, ninguém irá, sequer, notar a minha ausência). O articulista de opinião não é reconhecido, não é valorizado, não é estimado, a não ser que debite lugares-comuns ou se dedique a graçolas e trocadilhos básicos. Tenho perfeita noção de que este meu derradeiro artigo será recebido com indiferença, não espero apelos lancinantes a voltar atrás na decisão, nem o surgimento de uma súbita legião de admiradores. Nada disso…  

Este é um lugar de silêncio e de solidão. Ninguém quer saber, ninguém se importa. Talvez alguns perfis falsos vomitem o habitual ódiozinho venenoso, provavelmente alguns anónimos já bem conhecidos irão regozijar-se e alvitrar que já “vou tarde”. Well, fuck them!

Apesar disso, o balanço é francamente positivo: centenas de artigos, a maior parte dos quais envelheceram razoavelmente bem (ao contrário do autor, que tem vindo a azedar consideravelmente, devido aos efeitos da sobre-exposição à natureza humana); vários cronistas e articulistas “lançados” por mim (ou incentivados a escrever e publicar, por serem francamente bons); e milhares de caixotes de gato forrados com a minha fotografia, esta que poderão ver ali, junto ao título do artigo. É obra!

Enfim, não me atrevo a sugerir que lhes deixo um legado, seria presunçoso. Apenas artigos de opinião. Muitos. Valem o que valem, mas em cada um deles deixei um pouco de mim. São retalhos dispersos e efémeros dos últimos vinte anos da Madeira, do País e do Mundo.

Termino saudando e agradecendo a todos os que fizeram o favor de acreditar em mim e tiveram a paciência de me ler, ao longo destes anos.

Ponto Final.