Os joguinhos

Foi por esta altura em dezembro de 1974. Havia mudanças a olhos vistos na vida das pessoas e eu, que tinha 8 anos, perguntei a minha mãe o que era o 25 de abril. E ela cheia de sabedoria da vida disse: - Olha, minha filha, o 25 de abril é uma mudança. Dantes “avó Gusta” – a avó Augusta- não tinha dinheirinho nenhum para sobreviver na sua velhice e agora tem; agora o pai tem férias e dantes não; dantes os patrões não davam brinquedos aos filhos dos trabalhadores pela festa e agora dão. Percebeste o que é o 25 de abril? Percebera. Andávamos nós nos preparativos para a festa do Leacock. Meu pai a engraxar os nossos sapatos e a mala de minha mãe e a assobiar.

O festejo foi no Pavilhão do Liceu e fomos de camioneta, no horário, da Companhia de Carros de São Gonçalo que eram umas camionetas castanhas e beje. Meu pai tinha carta de chaufer profissional, mas não tinha carro próprio e nós tínhamos pena. Mas ele não, porque não queria dívidas, as filhas estavam a crescer. A aposta certa era no futuro delas, não num carro que come à mesa com uma família.

Quando chegámos, havia apenas um burburinho. Sentámo-nos onde nos mandaram e houve palhaços, música e dança e um pai natal que distribuiu balões com gás lá dentro.

Com o microfone, cada criança foi chamada por um senhor de fato para receber o presente. Muitas meninas receberam bonecas lindas. Quando chegou a minha vez, eu recebi uma caixa de cartão com desenhos coloridos num fundo branco e “dizeres” em inglês. E eu não fiquei nada contente com aquilo.

Quando a festa acabou, fomos ver as luzinhas do Natal pelas ruas e fomos comer um prego na “Chave D´ouro” que ficava na rua dos Ferreiros em frente à casa Brasil, atrás do Bazar do Povo. Depois, viemos para casa e enquanto subíamos a nossa vereda, meu pai pediu o olho - de - boi a minha mãe para alumiar o caminho e avistámos a gambiarra na casa do mestre Adriano e meu pai, como sempre, disse que ainda havíamos de ter uma gambiarra daquelas para enfeitar a nossa casinha pela festa.

Em chegando a casa, à roda da mesa da cozinha, intrigados com o meu presente, fomos abri-lo. Afinal, dentro da caixa estavam umas peças coloridas de diferentes tamanhos! Como se brincava com aquilo? Meu pai pediu a minha mãe os óculos do perto e começou a ler as instruções. “Isto são blocos” – disse, por fim.

Pusemo-nos a observar de um lado e do outro aquelas peças, a encaixá-las umas nas outras e vimos que era fácil. Difícil era desencaixá-las. E vai daí, para resolver o problema – não vais a bem, vais a mal – eu meti o dente e comecei a desencaixar tudo à dentada que os meus dentes eram bons e rijos! Filha desenrascada! Fizemos uma casa com as peças e ao contrário dava um barco. Assim ficámos largos minutos entretidos, o Marquês, o cão, na sorna aos meus pés debaixo da mesa.

No outro dia, vieram as pequenas todas ver o meu presente que já tinha nome: os joguinhos. Que coisa tão moderna, mas esquisita! Minha mãe espalhou por cada uma delas na abada, como se elas fossem galinhas ávidas de milho em grão, uma mão-cheia de peças para que brincassem. Começamos a levar horas a brincar com os joguinhos, a encaixá-los e a desencaixá-los à dentada. Até que a caixa se estragou e os joguinhos foram guardados num saco de plástico pendurado no interruptor da luz da cozinha que era uma bola e servia bem de prego.

Os joguinhos duravam e começaram as brigas entre nós. Todas queríamos a mesma peça, porque fazia mais jeito para fazer um barco ou uma casa ou um banco, etecetera. Minha mãe cheia daquilo até aos cabelos, um dia, pendurou o saco dos joguinhos no ferro da luz da rua e quando elas chegaram em bando como gaivotas, disse que o diabo tinha levado os joguinhos.  Patrícia sentou-se no banquinho do tio Alvarinho, os pés de botas ortopédicas encostados um no outro, os olhos grandes a rodar por todo o lado à descoberta. E descobriu e fez questão de mostrar que olhava descarada para os joguinhos na cara de poucos amigos de minha mãe, que ria por dentro. Quando apanhámos pé, a gente pegou na vassoura e libertou os joguinhos que caíram como um belo petisco e brincámos outra vez! Brigas? Naquela idade é tão fácil resolvê-las. O diabo que fosse atentar outro. Já tínhamos luz elétrica na nossa vereda e sabíamos bem que a eletricidade afugentava o diabo e as feiticeiras! Quem dizia isso era a senhora Maria José de Umbelina! Uma pessoa pode andar mais descansada de noite!

Ainda há dias encontrei uma peça dos joguinhos no meu jardim! Agora têm outro nome: os legos: E meu pai, há quase 50 anos, a ler em inglês e a traduzir por “blocos”! As voltas que o mundo dá!...