A tribalização e psicologia do extremismo

Tal como em todas as diversas dimensões que caracterizam o ser humano, a ideologia e o comportamento político-social é influenciado por uma interação complexa de fatores, que vão desde características sociodemográficas e de personalidade até ao contexto de vida das pessoas. Sendo certo que o que significa uma forma de ver o mundo vai muito além de uma lógica simplista de duas categorias, os acontecimentos recentes nos planos nacional e internacional e a realidade de crescente polarização em múltiplos países têm motivado o interesse em compreender o que caracteriza as ideologias e orientações extremas e particularmente que padrões de características psicossociais estão associados a ideologias extremas.

É neste sentido que têm surgido vários contributos da ciência psicológica, em que se inclui o estudo Psychological features of extreme political ideologies, de van Prooijen & Krouwel e publicado em 2019 na Current Directions in Psychological Science. Desde a invasão do Capitólio dos Estados Unidos até ao apoio a propostas atentatórias dos direitos humanos em contextos mais próximos, as evidências disponíveis apontam para a presença de algumas características comuns no apoio a posições extremas, nomeadamente (i) o receio e o chamado distress, (ii) a simplificação da realidade do mundo e (iii) a confiança e certezas morais.

Naturalmente que com graus diferentes de impacto, conforme os grupos populacionais e as suas características sociodemográficas e económicas, a falta de sentido e a incerteza em relação ao futuro, por exemplo em resultado das transformações económicas e da globalização, têm gerado receios, sentimentos de vulnerabilidade e até de ansiedade. Esta circunstância poderá constituir-se como um fator de risco para a adoção de ideologias mais extremas, sobretudo se se associarem a períodos de crise económica e desconfiança nas instituições. Por este motivo, não admira a aposta na comunicação e na mensagem de exploração do medo, da autovitimização e da desconfiança generalizada em relação às instituições por parte de movimentos extremistas - o que já inclui não reconhecer resultados eleitorais, como se viu nos EUA.

O distress pode associar-se também à linearidade que caracteriza as ideologias extremas. A simplificação da (complexa) realidade e do mundo social em lógicas a preto e branco são uma das características mais visíveis do extremismo, quer isso envolva questões relacionadas com os costumes sociais, quer questões relacionadas com a economia.

As visões simplistas e os raciocínios lineares, por sua vez, abrem espaço a uma elevada confiança nos mesmos e portanto para certezas morais. E sabemos que as certezas morais são a antecâmara da não aceitação de tudo o que divirja de tais certezas, daí que exista uma menor tolerância para grupos e opiniões diferentes.

Mensagens simplificadas que estimulam as certezas e a intolerância em pessoas que estão receosas ou se sentem vulneráveis, sobretudo no tempo de uma espécie de hiperatividade comunicacional e das redes sociais, onde todo o tipo de informação circula e onde são reforçados mecanismos autoconfirmatórios, é uma combinação cada vez mais ameaçadora para o clima social e para a integridade das comunidades.

Para combater o tribalismo ou uma ou outra vertente extremista e defender a liberdade e a democracia, mais do que adotar uma espécie de extremismo oposto ou simétrico, importa mobilizar o conhecimento disponível e compreender quais as razões psicossociais e institucionais que se constituem como fatores de risco para que as pessoas possam apoiar tais posições, e naturalmente procurar agir sobre elas.