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Artigo de Opinião

CONTOS INSULARADOS

7/07/2024 07:30

A mãe fazia um bolo, que eram dois, por cima do outro. Um de chocolate e outro amarelo, de sabor mais incerto, colados com creme “boca doce”. A primeira vez ainda andou a encaixar os bocados aos quadrados como se de um tabuleiro de jogos se tratasse. Queria fazer jus ao nome, afinal era bolo xadrez, mas dava uma maçada que não tinha explicação. Então começou a simplificar, que era a profissão primeira da mãe, tornar a vida de todos mais fácil. Um bolo em cima do outro com creme de caramelo, coco e umas bolinhas decorativas prateadas, que eram compradas com antecedência nas compras que se planeavam ao mês, às vezes a dois meses, com a organização que a lonjura e o isolamento obrigam. Quando cortado o efeito era mais ou menos o mesmo, um de cada cor.

Quando faltavam as bolinhas, ensaiava uns parabéns, desenhados a amendoins dispostos cuidadosamente na simplicidade terna daqueles ingredientes. Ia ao jardim e colhia uma rosa, de verdade e não de pasta de açúcar, que acrescentava beleza genuína e singela àquela homenagem que se repetia ano após ano. Quando passou a primeira década, a rotina repetiu-se e as lágrimas envergonhadas da mãe denunciavam a emoção da efeméride. A rosa, com quatro folhas verdadeiras e viçosas, ao lado de duas velas, pela primeira vez, no bolo poisado sobre a toalha bordada dos melhores dias, os de festa, deram cor à fotografia tirada na máquina de rolo e que tinha de ser manuseada com cuidado, para não haver surpresas na hora da revelação. A mãe escondia a comoção e perguntava se estava bom o bolo que no livro de receitas, aparecia com “ch” em vez de “x”, o que provocava gargalhadas Chadrez. Deveria ser para distinguir do outro que era cortado em quadrados, mas dava maçada.

Nunca houve bolos de pastelaria nos aniversários da infância. Era um ritual que se repetia nos melhores e piores anos, uma missão que a mãe encarava com um misto de obrigação, orgulho e agrado. Mesmo quando o coração apertava e os males da alma inquietavam ainda mais do que os do corpo, nunca lhe saiu mal a receita, nem nunca mostrou cansaço. A pequena é que não sabia, então, que nunca mais lhe saberia tão bem um bolo de anos como o da sua infância, decorado com coco e escrito a amendoim.

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