MADEIRA Meteorologia

25 Abril: Kissinger desculpou URSS em 1975, mas receava que comunistas matassem Soares

Data de publicação
23 Abril 2024
8:09

Henry Kissinger, secretário de Estado norte-americano, olhou a Revolução dos Cravos com desconfiança e pessimismo, receava que os comunistas matassem Mário Soares em 1975, mas desculpou os soviéticos pela onda vermelha em Portugal.

A Revolução dos Cravos, depois do 25 de Abril de 1974, prolongou-se até ao 25 de Novembro de 1975, o confronto militar em que os “moderados” e o PS venceram a “esquerda militar”, após meses de radicalização no país, à direta e à esquerda, bombas em sedes do PCP, ocupações de terras no Alentejo. E fez-se de jogos de sombras, de apoios, mais ou menos às claras, dos soviéticos aos comunistas e dos norte-americanos aos chamados moderados, a começar pelo PS, num mundo dividido pela Guerra Fria, entre os EUA e a URSS.

Num tempo em que as ameaças de golpe, à direita e à esquerda, eram notícia de capa de jornal, o secretário de Estado de Richard Nixon e de Gerald Ford, admitia, em surdina, que Portugal seguisse os passos, um ano antes, do Chile, onde o general Pinochet, com o apoio de Washington, liderou o golpe da extrema-direita que depôs (e matou) Salvador Allende, à frente de um Governo de frente de esquerda.

Em 04 de fevereiro 1975, antes de Portugal ir a votos em 25 de abril - eleições que deram a vitória ao PS de Soares e apenas 12% ao PCP - Kissinger reuniu-se com o chamado Comité dos 40, organismo que supervisionava operações clandestinas e que incluía os serviços secretos, a CIA.

“Os comunistas vão arrastar Soares para a esquerda até ele perder apoio e depois vão matá-lo. As forças armadas vão fazer um golpe de estado sob liderança dos comunistas”, antevia Kissinger.

Crítico de Mário Soares, que considerava fraco, Kissinger chegou a dizer-lhe, em outubro de 1974, que seria o “Kerensky português”, o dirigente socialista russo derrotado por Lenine na revolução russa de 1917. Um erro de análise admitido anos mais tarde, numa conversa com Soares, então primeiro-ministro.

As eleições para a Assembleia Constituinte, em abril de 1975, ditaram a vitória dos moderados, mas o secretário de Estado não entendia que os comunistas continuassem no Governo em Portugal e admitia um golpe.

Em agosto de 1975, Kissinger reuniu-se em Washington com o embaixador norte-americano em Lisboa, Frank Carlucci, em que foram discutidas as hipóteses de êxito de um golpe da direita em Portugal. “Não sou assim tão contra um golpe desse tipo [de direita]”. A confissão surge em letra de forma numa ata revelada há dez anos pelo Departamento de Estado, que desclassificou um grande número de documentos até então com o carimbo de secretos.

Já tinha passado mais de um ano sobre o golpe que derrubou a ditadura, a 25 de Abril, e o Governo de Lisboa era liderado por Vasco Gonçalves, o “inimigo número um” dos EUA. Carlucci insistiu que o maior risco para os objetivos norte-americanos eram António de Spínola, primeiro Presidente após o 25 de ABril, que fugiu de Portugal na sequência da tentativa de golpe de 11 de março, e a extrema-direita.

Carlucci opôs-se, tal como já se opusera à tese da vacina de Kissinger: “perder” Portugal para os comunistas, apoiados pela União Soviética, porque tal funcionaria como “vacina” para Espanha ou Itália. O diplomata defendeu, isso sim, o apoio dos EUA aos “moderados”, incluindo o PS de Mário Soares.

A outra dor de cabeça em Washington era o apoio soviético ao PCP de Álvaro Cunhal. Surpreendentemente, em 15 de agosto de 1975, numa reunião em Washington, o secretário de Estado desresponsabilizou, em privado, a URSS pela radicalização política durante o processo revolucionário em 1975, mas subiu, em público, o tom do discurso para evitar que os soviéticos pusessem “a mão em Portugal”.

“Não é justo culpar os soviéticos pelo que se está a passar em Portugal”, comentou Kissinger numa reunião de um grupo informal sobre o controlo de armamento, que juntava especialistas de universidades, em 15 de agosto, no Departamento de Estado, numa altura em que Portugal vivia o que se chamou Verão Quente.

Kissinger tinha feito, na véspera, em Alabama, um discurso de aviso quanto a Portugal, “em parte devido à pressão [de Moscovo] e em parte para evitar que os soviéticos ponham a mão em Portugal”.

Mas “falar aos soviéticos” não. Foi o que Kissinger disse nessa reunião em Washington. “É um sinal de fraqueza nossa irmos falar aos soviéticos. A sua contribuição [para Portugal] é relativamente menor e se não conseguirmos contrapor o dinheiro que eles [soviéticos] estão a investir, estamos numa má situação. Se tivéssemos feito em Portugal o que fizemos no Chile, o resultado seria o mesmo”, afirmou.

Ao “falar aos soviéticos”, Kissinger refere-se aos avisos de vários líderes europeus, entre eles o chanceler da RFA, Helmut Schmidt, ao líder soviético, Leonid Brejnev, para travar qualquer tentativa de tomada do poder pelos comunistas portugueses.

OPINIÃO EM DESTAQUE

88.8 RJM Rádio Jornal da Madeira RÁDIO 88.8 RJM MADEIRA

Ligue-se às Redes RJM 88.8FM

Emissão Online

Em direto

Ouvir Agora
INQUÉRITO / SONDAGEM

Quem vai ganhar a Taça de Portugal?

Enviar Resultados

Mais Lidas

Últimas