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Artigo de Opinião

GATEIRA PARA A DIÁSPORA

4/06/2024 08:00

Sentar-se a uma mesa alsaciana é abrir o baú da história. Perguntei a um dos nossos anfitriões, um homem reformado na casa dos 70 anos, de quem era aquela fotografia que estava à altura dos nossos olhos. A resposta foi de que era dos seus pais, no dia do casamento. O pai do noivo havia estado na frente russa, durante a Grande Guerra. Fora feito prisioneiro? O que se passara? Isso já não sei, estando tais respostas ausentes como ele próprio da fotografia. Ao centro da foto a preto e branco, os noivos. O noivo fora deportado para a Alemanha, e, ao voltar no fim da II Guerra Mundial, foi habitar a casa do seu pai: uma casa, duas Grandes Guerras. O túmulo deste último, bem como a sua casa, encontram-se hoje em território alemão.

Isto fez-me pensar no que veremos daqui por umas décadas nas nossas paredes. Fotografias de ausentes-presentes por causa de guerras? Familiares enterrados noutros países? Uma recordação distante dos parentes que nem sabemos muito bem situar na memória? O último número da revista Kometa – uma revista em língua francesa dedicada à Europa de Leste e aos territórios da antiga União Soviética – tem por tema o impacto das ditaduras e regimes autoritários na memória. Fala-se, por exemplo, da amnésia coletiva que o regime russo atual impõe relativamente à Tchetchénia, mas também através da ilegalização da organização Memorial, fundada como grupo para a preservação da memória das vítimas da repressão soviética, apesar de ter sido uma das laureadas em 2022 do Prémio Nobel da Paz. O revisionismo histórico, e não só o atinente à Ucrânia, é também disso exemplo. Assinalo também o caso de Ossip Mandelstam, que foi proscrito durante o consulado de Estaline devido aos seus poemas sobre as coletivizações forçadas e as primeiras fomes, e cuja memória literária só sobreviveu graças à sua esposa que aprendeu os seus poemas de cor, e os transmitiu. Lembram-se da peça By Heart, de Tiago Rodrigues?

Contudo, a construção, ou o apagamento da memória, não são apenas apanágio de regimes autoritários. Poderia indicar, por exemplo, as armas de destruição maciça que estariam na posse do regime iraquiano de Saddam Hussein, apontadas para justificar a intervenção americana e dos seus aliados – lembram-se da «Cimeira da Paz», nas Lajes? –, ou os voos da CIA, bem como a detenção temporária de pessoas, alheios a procedimentos judiciários, em território europeu. As democracias têm um dever de memória, e de saber retirar consequências disso. O nunca mais do Holocausto tem de ecoar na memória em construção de Gaza, que não pode ser reduzida a uma memória!

O filme Mr. Jones – A Verdade da Mentira retrata a viagem pela Ucrânia do jornalista galês, que testemunhou o Holodomor – a exterminação pela fome de cerca de 4 milhões de ucranianos que resultou das coletivizações forçadas da agricultura decididas por Estaline –, e decidiu contá-lo ao mundo. Numa das cenas, este jornalista encontra-se com George Orwell, autor de O Triunfo dos Porcos, que lhe diz que tem a obrigação de contar a verdade, ao mesmo tempo que, atónito, exclama: então não há alternativa (contrapondo o «milagre soviético» a uma visão autoritária que o regime nazi representava)!

Muitos anos depois, pode dizer-se que há alternativa: os regimes democráticos. A democracia não deve ser vista como o fim da história, nem como o pior regime à exceção de todos os outros. É importante aderir à democracia por convicção – numa base crítica e axiológica – e não como mal menor, e percebendo que há um efeito borboleta dos regimes democráticos e dos regimes autoritários. O Instituto V-DEM relembra que 71% da população mundial vive em autocracias e as eleições europeias de 9 de junho serão um novo teste: o seu curso decidirá também que fotografias teremos penduradas nas nossas paredes.

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