Mensagem do Bispo para Quaresma: “Deixa-te salvar sempre de novo”

Redação

Na próxima quarta-feira vamos, uma vez mais, entrar nesse tempo forte do ano cristão que é a Quaresma. Começou por ser o tempo em que os adultos que iam receber o baptismo na Vigília Pascal se preparavam de um modo mais intenso para esse momento central da sua vida.

Mas não tardou muito que também os outros cristãos, já baptizados, tivessem encontrado na Quaresma um tempo oportuno para reanimar a vida recebida no momento do baptismo, quer ele tivesse sido celebrado em criança ou em idade adulta. A Quaresma é, com efeito, um tempo de 40 dias em que procuramos dar mais intensidade à nossa vida cristã, à consciência de sermos baptizados: membros de Cristo, filhos de Deus, irmãos uns dos outros.

Este ano, o Papa Francisco convida-nos a centrar a nossa Quaresma na atitude da reconciliação e, em particular, nessa atitude de reconciliação com Deus que é a conversão: “Fixa os braços abertos de Cristo crucificado, deixa-te salvar sempre de novo” — convida o Papa.

Ninguém se consegue salvar a si mesmo. Essa é a experiência da humanidade ao longo de todos estes milénios de existência. Precisamos que Deus nos salve. Só Ele nos pode salvar. O baptismo (quando, ao sermos mergulhados na água, o Espírito Santo desce sobre nós, e o Pai diz de cada baptizado: “Tu és o meu filho muito amado”) é um momento central da nossa vida porque nos dá a possibilidade de vivermos por Cristo, com Cristo e em Cristo. De vivermos como filhos de Deus. De vivermos a salvação que Jesus nos oferece.

Mas sabemos, por experiência própria, como essa vida divina é manchada pelo pecado: manchada por atitudes de quem volta as costas a Deus, aos irmãos, à natureza, à nossa própria dignidade!

Precisamos de retomar, sempre de novo, o caminho do baptismo, de viver cada vez mais e melhor como baptizados. Uma das atitudes centrais para vivermos assim é a celebração do sacramento da Penitência, também conhecido por “confissão”. O Papa Francisco, todos os anos, nos dá o exemplo, dirigindo-se a um confessor e confessando-se à vista de todos. Sigamos o seu exemplo. Ele próprio convida também: “quando te aproximares para confessar os teus pecados, crê firmemente na misericórdia de Cristo que te liberta de toda a culpa. Contempla o seu sangue derramado pelo grande amor que te tem e deixa-te purificar por ele. Assim, poderás renascer sempre de novo”.

Renovo, também eu, este convite do Santo Padre: nesta Quaresma, procura um sacerdote e confessa-te, abre o teu coração e recebe o perdão de Deus. Não existe qualquer razão para celebrações da penitência com absolvição geral. Elas encontram-se previstas apenas para situações muito excepcionais, que não existem na nossa Diocese. A nossa conversão passa por um encontro pessoal com Deus, através de um sacerdote — um encontro que nos responsabiliza, que nos ajuda a crescer e em que somos perdoados dos nossos pecados concretos.

Mas a reconciliação com Deus deve mostrar-se também na reconciliação com os irmãos. Se na tua vida alguém te ofendeu ou se tu ofendeste alguém, vai ter com esse irmão, perdoa e pede perdão.

Como sempre, na nossa diocese faremos um gesto comunitário de renúncia. Como já vos disse, a renúncia diocesana da Quaresma do ano passado foi de 31.121,81 €, entregues para ajuda aos irmãos da Venezuela: uma parte (21.121,81 €) foi entregue à Cáritas diocesana e outra (10.000,00 €) à diocese venezuelana de San Carlos. A renúncia do Advento foi de 10.460,12 €.

Na renúncia quaresmal deste ano, que será recolhida no próximo Domingo de Ramos, convido-vos a apoiar o projecto que irá nascer no Recolhimento do Bom Jesus, no centro do Funchal. Com a colaboração dos Irmãos de S. João de Deus, o Recolhimento irá oferecer ajuda durante a noite aos mais de 70 sem-abrigo que dormem ao relento nas ruas da nossa cidade. Também eles são seres humanos a quem precisamos de ajudar a mudar de vida e reinserir-se na sociedade.

Ao longo destas semanas de Quaresma havemos ainda de intensificar a nossa oração pessoal e de participar nalguns dos muitos actos públicos de oração que marcam, em toda a nossa Ilha, este tempo litúrgico. Teremos, certamente, a oportunidade de nos encontrar nalgum deles. Mas, até lá, quero saudar-vos a todos e recordar, uma vez mais, as palavras do Papa Francisco: “Deixa-te salvar sempre de novo!”.