Vaticano: Arquivo muda de nome e deixa de ser "Secreto"

Ecclesia

O Papa Francisco determinou hoje a mudança do nome do Arquivo do Vaticano, que abandona a denominação “Secreto”, por considerar que a palavra ganhou uma carga “prejudicial” para a sua missão.

“Com as progressivas mudanças semânticas que ocorreram nas línguas modernas e nas culturas e sensibilidades sociais de diferentes nações, em maior ou menor grau, o termo Secretum, vinculado ao Arquivo do Vaticano, começou a ser mal compreendido, colorido em tons ambíguos, até negativos”, escreve o pontífice, numa carta apostólica divulgada pela Santa Sé.

A nova denominação da instituição dirigida pelo cardeal português D. José Tolentino Mendonça passa a ser ‘Arquivo Apostólico do Vaticano’, seguindo a mesma linha utilizada na Biblioteca.

O ‘Motu Proprio’ (texto escrito por iniciativa do Papa) que anuncia a alteração indica que o original latino, ‘secretum’, remetia para a dimensão de “privado, reservado”.

“Tendo perdido o verdadeiro significado do termo ‘secretum’ e associando instintivamente o seu valor ao conceito expresso pela moderna palavra ‘secreto’, nalgumas áreas e ambientes, mesmo de certa importância cultural, essa expressão assumiu o sentido prejudicial de estar oculto, de não ser revelado e ser reservado para poucos”, escreve Francisco.

A mudança, acrescenta, foi pedida por bispos e colaboradores próximos, tendo sido validade pelos “superiores do mesmo Arquivo”.

O documento papal reforça que a identidade da instituição passa por “servir a Igreja e a cultura”.

" A nova denominação destaca o estreito vínculo da Sé Romana com o Arquivo, uma ferramenta indispensável do ministério petrino, e ao mesmo tempo destaca a sua dependência imediata do Romano Pontífice, como já acontece em paralelo para a denominação da Biblioteca Apostólica do Vaticano”, pode ler-se.

O Arquivo do Vaticano conserva “os documentos relativos ao governo da Igreja, para antes de tudo estarem à disposição da Santa Sé e da Cúria no desempenho do próprio trabalho, e para que depois, por concessão pontifícia, possam representar para todos os estudiosos de história fontes de conhecimento, mesmo profano, daquelas regiões que há séculos estão intimamente ligadas com a vida da Igreja”.

Em entrevista à Agência ECCLESIA, aquando da sua nomeação como bibliotecário e arquivista do Vaticano, D. José Tolentino Mendonça sublinhava que estes espaços não estão fechados, antes há “uma política de empréstimos e de presença que abre as portas do arquivo e da biblioteca ao mundo inteiro”, tendo “mais de dois mil investigadores creditados”.

“É um arquivo que pertence à Igreja, mas claramente penso que é necessário retirar essa parte ficcional de um arquivo que esconde segredos inacessíveis”, advertia.

Ao longo de 85 quilómetros de estantes, distribuem-se mais de 630 fundos de arquivos diferentes.

O arquivo, nos moldes em que existe, nasceu por iniciativa de Paulo V, no século XVII, ainda que a sua história recue nos séculos, dado ter nascido, desde cedo, a tradição de os Papas guardarem a documentação que se referia ao exercício da sua própria atividade.

O documento mais antigo conservado no Vaticano é o ‘Liber Diurnus Romanorum Pontificum’, livro de fórmulas da chancelaria pontifícia do século VIII.

Este arquivo pode ser visitado por qualquer investigador devidamente acreditado por uma universidade ou instituto cultural, sem distinção de credo.