Bispo de Vila Real recorda com "saudade e gratidão" D. Maurílio de Gouveia (vídeo)

Ecclesia

O bispo de Vila Real num depoimento de “saudade e gratidão” lembra que teve o “privilégio de ajudar” D. Maurílio de Gouveia na Arquidiocese de Évora onde foi recebido e considerado “como irmão” pelo arcebispo que faleceu terça-feira.

“Partilhava comigo os problemas, dificuldades, dores, alegrias e resoluções, dum modo, que eu sempre considerei extraordinário e exemplar, de modo que nunca o esqueci e sempre o apreciei e continuarei a apreciar”, escreve D. Amândio Tomás, lembrando que em 2002 foi enviado para a Arquidiocese de Évora como bispo auxiliar.

No testemunho enviado à Agência ECCLESIA, “neste momento de dor e de esperança”, o bispo de Vila Real assinala que “guarda as melhores recordações” de D. Maurílio de Gouveia, e “um santo e reconhecido apreço”.

“A dignidade da pessoa humana estava no centro da sua atividade apostólica, vista e apreciada com os olhos da fé em Jesus Cristo”, lembra do arcebispo emérito de Évora.

Desta atividade pastoral, D. Amândio Tomás refere também que “apostava no contacto pessoal”, em sair e no encontro “com os necessitados de verdade, de pão e de sincero afeto”.

O serviço de D. Maurílio de Gouveia na arquidiocese eborense e a sua passagem pelo Patriarcado de Lisboa, como bispo-auxiliar, “foi uma bênção” que deixou “marcas na alma daquele bom povo”.

“Granjeou o apreço da gente alentejana, com o seu temperamento sorridente e expansivo. Foi sempre próximo da gente, particularmente dos pobres e afastados de Deus”, realça o bispo de Vila Real, recordando a visita de São João Paulo II por Vila Viçosa e “o entusiasmo que suscitou”, ou “o ardor e a solicitude” do arcebispo emérito de Évora nos mais diversos encontros, visitas e reuniões.

D. Maurílio de Gouveia faleceu esta terça-feira, dia 19, na Madeira, vítima de doença prolongada; Após a celebração de uma Missa na Sé do Funchal, os restos mortais do antigo arcebispo de Évora foram transladados para a diocese alentejana esta quinta-feira; D. Francisco Senra presidiu à Missa exequial e ao cortejo fúnebre para a Igreja do Espírito Santo, onde ficou sepultado no Panteão dos Arcebispos, esta sexta-feira.

"A fé no Ressuscitado alimenta a esperança do nosso reencontro com este fiel servo de Deus”, escreve D. Amândio Tomás no seu depoimento de “saudade e gratidão”.

Biografia de D. Maurílio Gouveia

D. Maurílio Jorge Quintal de Gouveia, filho de Aires Romão Freitas Gouveia e de Matilde Maria Quintal de Gouveia, nasceu a 5 de agosto de 1932 em Santa Luzia, no Funchal; cumpriu a sua etapa vocacional no Seminário Diocesano do Funchal e foi ordenado sacerdote a 4 de junho de 1955.

Aos 22 anos seguiu para Roma, para prosseguir os seus estudos, e formou-se em Teologia Dogmática na Pontifícia Universidade Gregoriana, tendo tirado também uma pós-graduação em Teologia Pastoral, na Pontifícia Universidade Lateranense.

Após este período, regressou à Madeira para exercer várias missões pastorais, como a de vice-reitor do Seminário do Funchal e professor de Teologia na mesma instituição.

A 26 de novembro de 1973, aos 41 anos, D. Maurílio de Gouveia recebeu a sua nomeação episcopal, como bispo titular de Sabiona e bispo auxiliar de Lisboa, através do Papa Paulo VI.

A ordenação episcopal de D. Maurílio de Gouveia foi celebrada pelo então cardeal-patriarca de Lisboa, D. António Ribeiro, a 13 de janeiro de 1974.

Quatro anos mais tarde, a 21 de maio de 1978, o bispo madeirense foi nomeado arcebispo titular de Mitilene, e a 17 de outubro de 1981, aos 49 anos de idade, chegou para D. Maurílio de Gouveia a nomeação como arcebispo de Évora, por intermédio do Papa João Paulo II, sucedendo a D. Frei David de Sousa.

A tomada de posse de D. Maurílio de Gouveia como arcebispo de Évora aconteceria três meses mais tarde, a 8 de dezembro de 1981, no dia da festa da Imaculada Conceição da Virgem Santa Maria, padroeira principal de Portugal e da Arquidiocese de Évora.

Ao longo dos 26 anos em que tomou conta dos destinos da arquidiocese alentejana, D. Maurílio de Gouveia destacou-se pelo empenho pastoral, assumindo como pioneiro num trabalho de proximidade com as comunidades católicas locais.

“Como estive no terreno, conheci as pessoas, entrei nas suas casas, visitei escolas e fábricas e pude experimentar bem a alma alentejana”, destacava D. Maurílio de Gouveia.

Em 2007, por ter atingidos os 75 anos, idade limite para o desempenho da missão episcopal, segundo a lei canónica, D. Maurílio de Gouveia apresentou ao então Papa Bento XVI a sua resignação ao cargo de arcebispo de Évora.

A 8 de janeiro foi anunciado o nome do novo arcebispo de Évora, D. José Alves, com D. Maurílio de Gouveia a assumir o cargo de Administrador Apostólico até à tomada de posse do seu sucessor, que viria a acontecer a 17 de fevereiro de 2008.

“Sinto-me muito feliz por tudo aquilo que pude viver aqui nestes 26 anos. Foi uma experiência muito gratificante. Estou muito grato a Deus por tudo aquilo que pude viver nestes anos, sobretudo pela amizade que se estabeleceu com todas as populações, famílias e pessoas individualmente”, destaca também na hora de deixar o cargo.

Os seus últimos anos, já com uma saúde muito debilitada, foram passados entre o Seminário de São José, em Vila Viçosa, e a terra natal, no Funchal; do seu percurso constam também cargos como os de presidente das Comissões Episcopais para o Apostolado dos Leigos e para as Comunicações Sociais.

A sua veia para a comunicação, que demonstrou de forma mais evidente ao longo do seu trabalho na Arquidiocese de Évora, ficou também expressa na sua ligação a projetos como o Jornal da Madeira, do qual foi diretor; e à criação literária.

Entre a sua obra bibliográfica estão livros como ‘Cristãos Exemplares’, ‘Eu sou o Pão da Vida’, ‘O Eremitério Maria Serena’, ‘Uma Comunidade de Cristãos – A Paróquia na Missão da Igreja’, ‘Magnificat’ e ‘Rumo ao Céu’, esta última já uma coletânea de pensamentos do arcebispo emérito reunida pelo cónego Cardoso de Melo.

Ainda no campo literário, e do legado deixado por D. Maurílio de Gouveia, inclui-se a obra ‘Concílio, Diocese e Evangelização’, apresentada no âmbito dos 50 anos de sacerdócio do arcebispo emérito, em 2005, com uma entrevista conduzida pelo então sacerdote e professor de História da Igreja no Instituto Superior de Teologia de Évora, D. Francisco José Senra Coelho, atual arcebispo de Évora.


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