Igreja Católica defende urgência em reverter níveis de desemprego jovem em África

Lusa

O presidente do Conselho de Bispos da África Ocidental defendeu hoje a "urgência de inverter" os níveis de desemprego jovem no continente, que estão a transformar "o deserto do Saara e o Mediterrâneo em cemitérios".

"Sessenta e cinco por cento da nossa população é jovem. Infelizmente, a maioria está desempregada e por isso muito exposta ao tráfico, uso de drogas, violência e migrações forçadas", disse o arcebispo Ignatius Kaigama.

Ignatius Kaigama falava hoje, na cidade da Praia, na sessão de abertura do VI Encontro do Conselho Permanente dos Bispos da África Ocidental (CERAO-RECOWA), que decorre até terça-feira.

No encontro, que se reúne pela primeira vez em Cabo Verde, participam 18 bispos das conferências episcopais dos países da Comunidade Económica da África Ocidental (CEDEAO) de língua portuguesa, francesa e inglesa.

"Enquanto permanecerem sem emprego, são presas fáceis para os senhores da guerra e criminosos políticos, que os recrutam para crimes violentos e terrorismo. Há uma urgente necessidade de reverter esta tendência tomando medidas apropriadas e incentivos à criação de oportunidades de emprego para estes jovens", prosseguiu Kaigama.

Assinalou também que o desemprego jovem está a provocar migrações forçadas e estão a "transformar o deserto do Saara e o Mediterrâneo em cemitérios".

O arcebispo, originário da Nigéria, questionou o papel na Igreja Católica na abordagem a este problema, sublinhando a importância da discussão deste assunto durante os trabalhos do encontro.

Ignatius Kaigama apontou como outros grandes desafios ao papel da Igreja Católica na região da África Ocidental as transições tumultuosas e a instabilidade política, a evolução da intolerância religiosa para extremismo e terrorismo ou os grupos nómadas associados a raptos, assassinatos e destruição de quintas.

Defendeu a necessidade de criar uma estrutura regional de prevenção, mediação e resolução de conflitos na região, um corpo de observadores eleitorais, bem como um gabinete de ligação junto da Comissão da CEDEAO.

"Chegou a altura de comprometermos ativamente os líderes sociais, políticos e económicos da região para abordarem as causas na origem destes problemas", reforçou.

O cardeal cabo-verdiano Arlindo Furtado, anfitrião do encontro, classificou como "dramático" o problema das migrações em África, considerando que a Igreja não pode "limitar-se à sacristia".

"Os nossos políticos, que têm maior responsabilidade no desenvolvimento social e económico, têm de também ouvir da Igreja, quando necessário, que é preciso cumprir bem o seu papel. Nós, Igreja, devemos exercer a cidadania ativa, quer como indivíduos, quer como organismo eclesial para que as coisas funcionem melhor e as pessoas tenham melhores condições de viverem com dignidade no seu próprio país. A emigração é um dado natural, mas não pode ser forçada", disse.

A organização das Conferências Episcopais dos países da África Ocidental (CERAO-RECOWA), que inclui também a Mauritânia, resultou da fusão, em 2012, das conferências episcopais de língua francesa e inglesa.

Cabo Verde e a Guiné-Bissau são os únicos países representantes de língua portuguesa e estão associados à Conferência Episcopal do Senegal.

A realização do primeiro encontro de bispos em Cabo Verde insere-se no âmbito de uma aproximação da Igreja Católica cabo-verdiana ao continente africano na sequência da criação, em 2015, do primeiro cardeal cabo-verdiano, Arlindo Furtado.

Durante o encontro, os bispos irão abordar temas como a família, a juventude, a pastoral social e farão uma análise da situação política nos respetivos países.

Os presidentes das conferências episcopais irão também participar numa formação específica sobre "Liderança da Igreja em África".

O Conselho Permanente dos Bispos reúne-se uma vez por ano para fazer a avaliação geral do trabalho das conferências episcopais.

Arlindo Furtado, que é membro da Comissão de Finanças do organismo, participou no encontro pela primeira vez em 2017.