No Bangladesh, papa pediu ao mundo “medidas decisivas” mas sem mencionar crise ‘rohingya’

O papa Francisco rompeu hoje no Bangladesh o silêncio sobre o êxodo em massa de membros da minoria muçulmana ‘rohingya’ e pediu à comunidade internacional “medidas decisivas”, incluindo “ajuda material imediata”, para enfrentar esta atual crise humanitária.

Num discurso à chegada a Daca, após uma visita de quatro dias à Birmânia (atualmente Myanmar), o pontífice não mencionou a palavra ‘rohingya’, mas quebrou o silêncio diplomático e referiu a situação dos “refugiados chegados em massa do Estado de Rakhine", a região birmanesa que tem sido o epicentro da atual crise.

Nesta primeira intervenção em solo bangladeshiano, Francisco disse que é “imperativo” que os governos a nível mundial prestem uma assistência imediata às autoridades do Bangladesh, país que acolhe atualmente mais de 620 mil ‘rohingyas’ que fugiram do oeste da vizinha Birmânia.

Diante do Presidente do Bangladesh, Abdul Hamid, de representantes governamentais e de embaixadores de todo o mundo, o papa elogiou o sacrifício daquele país ao acolher tantas pessoas.

“Nenhum de nós pode deixar de estar consciente da gravidade da situação”, reforçou Jorge Bergoglio, que vai estar no Bangladesh até sábado.

Ao receber o pontífice, o Presidente do Bangladesh lançou duras críticas às autoridades birmanesas e acusou o exército da Birmânia de cometer "atrocidades impiedosas” contra os ‘rohingyas’.

Abdul Hamid também exigiu ajuda internacional para garantir um regresso seguro e uma integração duradoura dos ‘rohingyas’ na sociedade birmanesa.

O chefe de Estado frisou que milhares de homens, mulheres e crianças desta minoria muçulmana foram brutalmente mortos, viram as respetivas casas a serem incendiadas e testemunharam milhares de violações de mulheres.

Abdul Hamid sublinhou que o Bangladesh acolheu os refugiados ‘rohingyas’ de braços abertos, mas que agora existe uma “responsabilidade partilhada” perante um futuro processo de repatriamento.

Na semana passada, em Naypyidaw, Birmânia e Bangladesh acordaram os critérios para um possível repatriamento dos membros da minoria muçulmana ‘rohingya’ que, desde outubro de 2016, têm entrado em território bangladeshiano.

Apesar das primeiras movimentações terem começado em outubro do ano passado, o atual êxodo dos ‘rohingyas’ teve início no final de agosto, quando foi lançada uma operação militar do exército birmanês contra o movimento rebelde Exército de Salvação do Estado Rohingya devido a ataques da rebelião a postos militares e policiais.

Perto de 624.000 ‘rohingyas’ terão fugido da campanha de repressão do exército birmanês, já classificada pela ONU como uma limpeza étnica e como uma das crises humanitárias mais graves do início do século XXI.

O Estado birmanês, um país mais de 90% budista, não reconhece esta minoria e impõe múltiplas restrições aos ‘rohingyas’, nomeadamente a liberdade de movimentos.

Desde que a nacionalidade birmanesa lhes foi retirada em 1982, os ‘rohingyas’ têm sido submetidos a muitas restrições: não podem viajar ou casar sem autorização, não têm acesso ao mercado de trabalho, nem aos serviços públicos (escolas e hospitais).

Esta crise desencadeou uma vaga de críticas à líder de facto da Birmânia, Aung San Suu Kyi.

A Nobel da Paz (1991) foi acusada de ter esquecido os Direitos Humanos e de ter minimizado a situação denunciada pelas vítimas.