Bispo do Funchal lamenta a falta de valores da sociedade atual que "vive para ter e não para ser"

Guadalupe Pereira

O Bispo do Funchal preside esta tarde na Sé a Missa da Quarta-feira de Cinzas, no início da Quaresma, propondo uma reflexão baseada na súplica: “Pecámos, Senhor, tende compaixão de nós!”, que hoje, cada um de nós se dirige a Deus.

“Esta súplica que hoje se eleva da terra ao céu há-de guiar-nos ao longo do caminho destes 40 dias de penitência que agora iniciamos”, observa D. Nuno Brás.

“Pecamos no segredo dos nossos pensamentos, dos juízos que realizamos; pecamos nas palavras que dizemos e que tantas vezes matam o nosso próximo; pecamos nas nossas acções, nas atitudes, naquilo que fazemos; pecamos porque omitimos, porque esquecemos, porque nos demitimos, preferindo o nosso conforto pessoal”, esclarece o bispo diocesano que há dois anos, neste mesmo dia, tomou posse.

Alerta, que “não se trata de ignorar as nossas qualidades, nem tão-pouco o caminho que já realizámos. Trata-se, isso sim, de nos darmos conta de como é importante o caminho que ainda precisamos de percorrer; aquelas realidades que necessitamos de mudar no concreto da nossa vida, para nos irmos aproximando e vivendo, cada dia mais e melhor, o amor de Deus que veio ao nosso encontro em Jesus de Nazaré”, frisa.

Lembra, que “cada um de nós faz parte de uma sociedade. Integramo-la; contribuímos para a sua existência e para a sua vida”, revelando, que somos os construtores de uma sociedade com valores, sem dúvidas, assumamos que “como recebemos tanto desses valores, herdados de quantos viveram antes de nós, do mesmo modo cada um e todos somos responsáveis pelo mundo que deixaremos àqueles que hão de viver depois de nós”.

Para o bispo diocesano, “a nossa relação com Deus não passa apenas pelo segredo da nossa consciência”, passa pela “nossa existência” e “pela vida da sociedade em que nos inserimos, em que vivemos e que nos ajuda a viver”.

No entanto, D. Nuno Brás observa que “a sociedade constituída na sua maioria por cristãos, espera-se, necessariamente, que tenha um rosto cristão”, mas, está “muito longe do Evangelho, dos seus valores e da sua vida, da sua proposta”.

Percorrendo o texto da homilia, enviado à redação do Jornal, o responsável católico diz que, “com facilidade, descobrimos que, afinal, vivemos numa sociedade que promove o egoísmo”. Lembrando que muitos “não têm o suficiente para viver” e “onde muito facilmente a vida humana é espezinhada, desde o ventre materno ao seu fim natural”, onde “valor supremo é o consumo”.

Numa referência à eutanásia e ao aborto, D. Nuno Brás refere “vivemos numa sociedade onde a própria criação se encontra em risco. Vivemos numa sociedade sem horizontes, que se tornou deus para si mesma e onde o verdadeiro Deus tem muito pouco lugar”.

“E nós, cristãos, somos tão pouco Igreja! Mostramos tão pouco ao mundo a felicidade de ser cristão! Contentamo-nos com as nossas orações, os nossos ritos. Mostramos pouco a Jesus e ao seu amor. Vivemos pouco a fraternidade que nos vem de sermos batizados, membros do único Corpo de Cristo”, lamenta.

A terminar faz uma comparação com o desporto, “como o atleta que diariamente treina e que, num determinado período do ano, “entra em estágio”, também nós começamos hoje este verdadeiro tempo de estágio, de retiro cristão que é a Quaresma. Que o Senhor nos ajude a não desistir a meio do caminho por causa do cansaço, de modo a chegarmos à sua Páscoa”.