D. Nuno Brás: "É muito difícil olhar para nós e pensar o que seríamos sem a União Europeia"

Ecclesia

O delegado da conferência episcopal na Comissão dos Episcopados Católicos da União Europeia (COMECE) considera que a presidência rotativa da UE assumida por Portugal em janeiro deve ser marcada pelas preocupações sociais.

“Aquilo a que Portugal se propõe é de facto ambicioso, mas isso é importante. É importante apontar para o mais alto. Obviamente que nem todas as questões ficarão resolvidas, mas se nós dermos vários passos para a resolução destes problemas será um contributo muito importante e eu espero que Portugal, na sequência das outras presidências, seja capaz de dar esse contributo”, assinala D. Nuno Brás, convidado da entrevista conjunta Renascença/Ecclesia que é emitida e publicada semanalmente ao domingo.

O bispo do Funchal comentava o tema escolhido pela presidência portuguesa, ‘Tempo de agir: por uma recuperação justa, verde e digital’.

Para o responsável católico, a atenção dada à questão social deve assumir as propostas do Papa neste campo, evocando a mensagem que Francisco escreveu nos 50 anos das relações Santa Sé-União Europeia, apelando a uma resposta comum perante a pandemia e à preservação dos valores fundamentais do projeto comunitário.

O entrevistado destaca que o património cristão “está na raiz da própria construção, da integração europeia”, pelo que “não só é qualquer coisa a ser recuperada, mas também está de facto ainda presente”.

D. Nuno Brás admite que houve um momento “inicial” de desnorte, na UE, aquando da primeira vaga da pandemia, mas considera que desde então se verificou uma “presença unificadora e uma presença de apoio aos Estados”, desde a vacina aos instrumentos económicos e financeiros para ajudar na recuperação da crise.

“Neste momento, é muito difícil olharmos para nós, portugueses, e pensarmos o que seríamos sem a União Europeia”, aponta.

O delegado português na COMECE destaca que o país tem uma “maior sensibilidade” ao tema das migrações, que pode ajudar às negociações neste campo, pedindo “um acordo que respeite a pessoa, enquanto tal, em primeiro lugar”.

“Cada migrante é, antes de mais nada, uma pessoa, e é como pessoa que o havemos de tratar”, aponta.

O bispo do Funchal fala de um “muito bom” diálogo institucional entre a COMECE e Bruxelas, admitindo diferenças em “questões de ética” ou temas como o relacionamento Europa-África”.

A entrevista aborda ainda o impacto da pandemia no arquipélago da Madeira, com particular referência à quebra na atividade turística.

“Precisamos de tomar medidas drásticas para que, uma vez mais, a Madeira possa ser considerada como um lugar onde toda a gente pode vir sem o medo de infeções. Vai ser mais difícil, mas estou esperançado de que conseguiremos debelar estes vários surtos que estão a surgir”, conclui D. Nuno Brás.