D. Nuno Brás: "as consequências desta pandemia permanecerão por muito tempo"

O Bispo do Funchal, D. Nuno Brás, não tem dúvidas de que os efeitos da pandemia de covid-19 vão prolongar-se nas vidas de todos por muito mais tempo do que seria de esperar.

Na Homilia da Missa do Final do Ano e Te Deum, o Bispo percorre o ano que agora termina, fala da pandemia que a todos atingiu, mas também deixa uma palavra de esperança.

Texto da Homilia na íntrega:

À primeira vista, parece que pouco temos para agradecer, neste ano que ficará para a história. Parece que Deus nos abandonou e a toda a humanidade — como se apenas os acontecimentos felizes constituíssem oportunidade de crescimento, progresso, salvação!

Ainda no meio da pandemia, não possuímos o distanciamento necessário para avaliar todo o impacto que ela terá na nossa vida. Mas o cristão, certo de que o Senhor jamais abandona a obra das suas mãos, sempre procura olhar o mundo e os acontecimentos com os olhos de Deus, para discernir a Sua vontade.

Vários autores compararam os efeitos desta pandemia ao sucedido com o terramoto de 1755. Para além dos estragos que causou, o Terramoto constituiu um escândalo para os intelectuais da altura, eivados de racionalismo iluminista, confiantes em absoluto nas capacidades da razão humana — e que, com o sucedido, se viram obrigados a questionar o seu estilo de vida e o seu modo de pensar.

Seremos capazes de derrotar o vírus do ponto de vista médico. Mas — não tenhamos dúvidas — as consequências desta pandemia permanecerão por muito tempo, no nosso modo de pensar e de viver.

Neste ano, ficou a clara a nossa fragilidade. Percebemo-nos impotentes e limitados. O medo — senão mesmo o pânico — instalaram-se no coração de muitos. A “infodemia” (a hiperbolização e a “mania” da informação) tomou conta de quase todos: fomos dominados pelos media e pela sua visão da realidade e, sobretudo, fomos dominados pelas redes sociais. Todas as informações (reais ou descaradamente inventadas) circularam livremente, transformando o mundo numa gigantesca central de notícias.

O que parecia ser um mundo destinado a saborear a vitória viu-se, de repente, obrigado a travar o seu caminho: a globalização, a homologação forçada de comportamentos e modos de vida constituíram o veículo do vírus e da aflição que a todos rapidamente assaltou.

Contudo, não podemos esquecer como também ao longo deste ano se manifestaram a coragem e a solidariedade; de como nele percebemos o valor da relação directa entre seres humanos (a necessidade que temos de estar presencialmente com aqueles que amamos), bem como o valor das conquistas tecnológicas que nos permitiram ser de algum modo presentes, ainda que fisicamente distantes. E não esquecemos como voltámos a perceber a necessidade de escutar e ser escutado — único modo de ultrapassar verdadeiramente a solidão.

Neste ano que passou, mais que em qualquer outro, tomámos consciência de que estamos todos no mesmo barco, que fazemos parte de um todo que é a humanidade — como a todos lembrou o Papa Francisco, naquela noite de 27 de março.

Perante esta realidade, que pode e deve dizer a fé? Como podemos viver como cristãos neste nosso tempo de pandemia?

O valor da vida humana foi colocado em relevo. Diante do perigo, havia que salvar. Diante da morte, havia que procurar a vida. De todos. De um modo particular, dos mais vulneráveis, sobretudo dos mais velhos e frágeis. Pena que (enquanto os médicos e enfermeiros se desdobravam em esforços para salvar) nem todos tivessem entendido este apelo da vida que surgiu do meio da crise, e que alguns dos nossos representantes não tivessem hesitado em aprovar a iníqua lei da legalização da eutanásia — como se alguém tivesse o direito a exigir ao Estado que considerasse a sua vida como indigna de ser vivida!

O correr do mundo escapou de modo claro à nossa vontade. Percebemos que não somos ilimitadamente livres, que nenhum ser humano nem a humanidade no seu todo é omnipotente. Se, por um lado, não somos marionetas de um destino já previamente determinado, também não somos os donos absolutos da nossa vida. Nem tudo se encontra nas nossas mãos.

Mas fé não deixa de nos recordar que “Deus concorre em tudo para o bem daqueles que O amam” (Rom 8,28). Ou, como escreve S. Tiago, o Padroeiro da nossa diocese: “Uma vez provado, [aquele que suporta a provação] receberá a coroa da vida, que o Senhor prometeu aos que O amam” (Tg 1,12). Quer dizer: Deus envolve-nos no amor que salva — o único a salvar e a dar verdadeira e definitiva esperança. O seu desígnio de amor, que nem sempre somos capazes de entender plenamente, terá a palavra final. A nossa liberdade, real mas finita, é convidada a cooperar com esse plano de salvação.

É por isso que não podemos deixar de alargar o nosso horizonte. O homem nosso contemporâneo tem a tendência a olhar apenas para o aqui e agora. E entra em pânico quando o aqui e agora não decorrem segundo a sua vontade. Ao contrário, o homem de fé vai adquirindo o olhar de Deus. E esse olhar convida a ver mais longe, e a perceber que os acontecimentos do tempo presente (não raras vezes duros e negativos) fazem parte de um todo magnífico.

Deste todo, Deus não se distancia, comportando-se como simples espectador que assiste, divertido ou preocupado, ao desenrolar dos acontecimentos. Em Cristo — estamos ainda a celebrar o Natal —, Deus entrou na história. E ao fazer-se um com os mais pequenos, com os que não têm trabalho, os que sofrem, os que vivem em dificuldade, os sem-abrigo e aqueles que são rejeitados por todos; ao viver em primeira pessoa o sofrimento mais atroz da morte injusta e cruel da cruz, Deus mostra como nos acompanha no sofrimento. Faz seu o nosso sofrimento.

Deus mostra-nos, assim, como do sofrimento pode resultar a vida. Mostra-nos que cada um de nós não é um ser para a morte mas para a vida. Mostra que, nele, unidos a Ele, também nós podemos viver eternamente. A morte (que mais cedo ou mais tarde, todos havemos de viver) é um pórtico para a eternidade — um pórtico decisivo, no qual cada um é chamado a dar a sua resposta definitiva ao Senhor da vida; um pórtico decisivo para o qual nos preparamos ao longo da nossa vida neste mundo.

Mas isso significa também que não somos nós, seres humanos, a ocupar o lugar principal da história e da realidade. A vida, o tempo, a história encontram em Deus a sua origem e o seu fim, o seu centro, o seu sentido. “Jesus Cristo […] ontem e hoje e por toda a eternidade” — afirma a Carta aos Hebreus (Heb 13,8). Em Deus (e apenas nele) encontramos a nossa verdadeira dignidade, realização e plenitude de seres humanos.

A que nos convida este ano que estamos a terminar?

Convida-nos, em primeiro lugar, a repensar os critérios do nosso quotidiano e da nossa vida. A economia, a segurança, o prazer, o poder e mesmo a ciência e a técnica não são tudo. Sobretudo devem ser olhados como instrumentos, meios, caminhos para a realização plena da nossa vida humana — de cada um e de todos.

Convida-nos este ano que passou a dar mais valor ao outro. Convida a olhar o que fazemos e o que somos não apenas como modo de cada um chegar individualmente a uma vida melhor e feliz, mas como o modo que nos é dado para contribuirmos, cada um de acordo com as suas capacidades, para o bem de todos e para o bem da inteira humanidade.

Convida-nos este ano que passou à humildade — que o mesmo é dizer: à verdade. Convida a deixarmo-nos da ilusão de que somos tudo, podemos tudo, sabemos tudo. Convida-nos a deixarmo-nos da ilusão de que nos havemos de salvar pelos nossos meios e pelas nossas forças. Ao contrário: com os outros e com Deus, somos mais nós; somos mais fortes; somos mais felizes. Somos mais humanos.

A nós, cristãos, o ano que passou convida-nos a viver cada vez mais intensamente na fé. A deixar que toda a nossa existência seja vivida com Deus e para os outros nossos semelhantes. Convida-nos a recentrar a nossa vida em Deus. Convida-nos a tomar Deus a sério. Deus não pode ser um apêndice ao final do dia ou (muito menos) um recurso quando dele sentimos necessidade. Deus é o centro da nossa existência. Aquele que nos permite olhar tudo o que se encontra à nossa volta com os olhos do verdadeiro Amor — e, por isso, que nos permite ver tudo com um olhar diferente daquele que o nosso egoísmo sempre nos propõe de forma enganosa.

Convinda-nos, por isso, a nós cristãos, a não deixarmos de propor, insistente e constantemente, a Deus como horizonte verdadeiro da vida humana e a Jesus Cristo como o Salvador que o Pai nos enviou. Quem aceita viver com Deus e quem aceita que Deus viva, partilhe cada momento da sua vida, vive no horizonte da eternidade — e, sem deixar de viver cada momento como definitivo, vive-o como parte de um todo em que Deus tem a última palavra: palavra de amor e de salvação.

Conta-se que alguém, vendo brincar o jovem S. Luís Gonzaga, lhe terá perguntado o que faria se o mundo estivesse para acabar. O santo não hesitou, e respondeu: “Continuava a brincar”.

Esta pandemia não é o fim do mundo. Mas mesmo que o fosse, aquele que tem o seu coração habitado pela fé não pode deixar de relativizar este mundo passageiro: “O mundo, a vida, a morte, as coisas presentes e as futuras. Tudo é vosso; mas vós sois de Cristo, e Cristo é de Deus”, recordava S. Paulo aos cristãos de Corinto (1Cor 3,22-23).

Este ano cheio de dificuldades convida-nos a ser mais de Deus para sermos mais nós mesmos e mais para os outros e com eles.

Todas estas dificuldades e os caminhos que vamos encontrando para as superar, o positivo e o negativo deste ano que passou, não podemos deixar de tudo agradecer ao Senhor do mundo e da história.

Bendito seja Deus que, no meio da tribulação, sempre nos oferece luz e força para O louvarmos e para progredirmos no caminho da Vida — a Vida que se manifestou em Jesus e de que vemos a glória!