Madeirense relata “filme de terror” nas estradas da Europa

“Até arrepia! Estas estradas vazias parecem o Paúl da Serra, na Madeira”. A comparação é de Renato Pedro, um camionista madeirense que continua a atravessar a Europa com a confiança que tudo “vai acabar”

Em entrevista ao JM e à 88.8 JMFM diz que toda a situação atual na Europa “parece um filme de terror”, absolutamente “indiscritível”.

O camionista está na estrada desde quinta-feira, esteve na Alemanha, Bélgica, França e está agora em Espanha. Em relação à mercadoria, o madeirense contou que carrega toda a espécie de frutas e legumes, produtos refrigerados, entre muitas outras coisas.

O condutor tem encontrado muita tristeza por toda a Europa. “É indiscritível e triste irmos sozinhos na estrada. É um grande vazio, quero que isto tudo passe depressa.”

O camionista disse ainda que sente alguma discriminação por partes das pessoas uma vez que eles, os camionistas, andam por todo a Europa. “Quando estive na Bélgica parecia um filme de terror, mediram-me a temperatura e, para assinar uma autorização de saída, o homem afastou-se 3 metros de mim”. Apesar de todas as dificuldades o madeirense não vai parar, como diz, não é médico nem enfermeiro, mas acredita que “se não forem os camionistas vai tudo parar”.

O madeirense sente-se uma parte importante nesta luta contra a pandemia, apesar de não saber quando vai regressar a casa. Em relação à alimentação e higiene, Renato diz estar tudo fechado e que não há lugar para comprar nada. “Fazemos a comida no carro e evitamos contactos entre colegas, falamos por telemóvel para enfrentarmos isto todos juntos.”

Em relação à higiene diária a tarefa tem sido muito difícil, o camionista admitiu estar “já há alguns dias sem tomar banho” e que “é difícil sair à rua e tomar banho com uma garrafa de água e 2ºC”. Mas uma das grandes razões que o faz continuar é sentir-me peça importante da sociedade neste momento e achar “que as pessoas vão passar a olhar para nós de outra forma ainda que não tenham noção do que custa chegar um quilo de tomate ao supermercado.”

Em relação à família que por lá existe, Renato diz ter vários colegas da Madeira e que foi o primeiro a entrar na empresa. O camionista contou como têm sido os últimos dias na estrada. “Nunca vivemos isto, é um filme de terror autêntico, em Paris, em plena hora de ponta, não vi absolutamente ninguém.”

Nas entrelinhas, o madeirense deixou uma crítica ao comportamento das autoridades nas fronteiras. “O que acho mal é que nas fronteiras as autoridades viram a cara e não fazem nada, nem nos medem a temperatura. Soube da quantidade de pessoas que têm morrido em Espanha, entrei aqui e até arrepia”.

O camionista tem tido alguns cuidados para evitar a infeção com COVID-19, e, há dias, conseguiu comprar “4 frascos de álcool de 100 mililitros por 20 euros”. O próprio tenta sempre desinfetar o carro, o volante, abrir as portas do camião e evitar as casas de banho públicas.

O condutor esteve na Madeira “há 15 dias”, está bem e tem comida suficiente que comprou em Portugal.

Como relata Renato Pedro, estão todos “receosos”, sem saber quando é que voltam a casa, mas “não vão parar” apesar de todos os sacrifícios.