Entre a "demagogia barata" de Gonçalo Santos e a leitura da "cartilha" de João Pedro Vieira - Tensão a três dias das eleições

Alberto Pita

As posições diárias que os protagonistas vêm assumindo no Programa 5.0 começam a expor divergências cada vez mais profundas, particularmente visíveis entre o centrista Gonçalo Santos e o socialista João Pedro Vieira.

Hoje, os dois foram protagonistas de uma acesa discussão, que levou João Pedro Vieira a dizer que Gonçalo Santos merecia o prémio da “demagogia” e o centrista a acusá-lo de ir ao programa “cumprir uma cartilha”.

O arranque do “5.0” começou, contudo, de forma pacífica e com notas positivas de convergência.

Coube à social-democrata Rubina Berardo moderar o programa de hoje, dedicado ao tema da economia.

A social-democrata elegeu o consenso em torno do sistema fiscal regional como a sua nota positiva, mas destacou também o entendimento sobre o regresso da aplicação do diferencial de 30% nos impostos e a revisão da taxa de juro que é cobrada pelo empréstimo de 1,5 mil milhões de euros que a Madeira fez à República, aquando do Plano de Ajustamento Económico e Financeiro (2012-2015). Aqui, Rubina Berardo fez notar que desde 2016 havia vontade do Governo Regional de rever a taxa de juro, mas que só no Orçamento do Estado para 2019 é que a proposta foi validada.

Dado o mote, começou então o debate.

Uma vez mais, as propostas do BE estiveram no centro da discussão, e não pelas melhores razões. Tem sido assim todos os dias. Hoje, o chumbo dado foi à ideia de criar uma moeda complementar regional, que teria circulação única no arquipélago, fazendo aumentar a riqueza regional.

A moeda da Madeira foi objeto de escárnio. Rubina Berardo foi a primeira questionando se a “Bloco Coin”, como apelidou, serviria também para pagar os salários da função pública.

A dúvida da social-democrata levou ao colega de partido João Paulo Marques a entrar em cena para lembrar que também Nicolás Maduro tentou um modelo parecido ao propor uma moeda virtual para a Venezuela.

Até aqui, o debate ia descontraído, mas morno. Então o socialista João Pedro Vieira lançou a pimenta. “A ideia de Paulino Ascenção pode vir do tempo em que estava na JSD”, sugeriu.

Aproveitando a deixa, o centrista Gonçalo Santos gracejou: “Estamos a assistir ao divórcio em direto entre o PS e o BE”.

Sem responder à provocação, João Pedro Vieira preferiu continuar a falar do regime fiscal próprio. E sobre o assunto, não se mostrou contra a ideia, embora tenha considerado ser precipitado estar a pensar num regime dessa natureza, quando o Governo Regional ainda “não é capaz” de aplicar o diferencial fiscal que a lei contempla. Além disso, questionou-se sobre como essa medida seria implementada.

O socialista demarcou-se depois do regresso do ciclo das obras na Madeira, defendendo que hoje é “relativamente consensual” que a economia madeirense precisa de se diversificar mais, alargando-se, por exemplo, para o mar, onde o PS tem várias ideias conhecidas.

E porque o formato do programa prevê que cada interveniente escolha a medida negativa e a positiva que encontra nos programas adversários, João Pedro Vieira destacou negativamente a proposta do CDS de priorizar os produtos regionais nas cantinas dos serviços públicos, por ser aparentemente “impossível de concretizar”. “Como fazê-lo à luz das regras de hoje da contratação pública?”, quis saber.

O social-democrata João Paulo Marques interveio com vontade de acicatar o adversário socialista. “Sei que o João Pedro Vieira estava ontem muito triste com as sondagens e, por isso, procurei uma medida positiva no programa do PS, e encontrei”, disse, referindo-se ao ponto em que os socialistas assumem a defesa do Centro Internacional de Negócios da Madeira (CINM), um instrumento que produz uma “importante receita fiscal” e que cria “mais de 3.000 postos de trabalho”.

Mas como não há bela sem senão, João Paulo Marques identificou um problema. “O Bloco de Esquerda é o único partido que coloca em causa o CINM como o conhecemos hoje”, pelo que logo veio a interrogação: “Como o PS pretende caucionar esta cruzada do BE?”.

Antes de entregar a palavra, o social-democrata deu nota negativa à Iniciativa Liberal por propor a redução da dívida pública para 60% do Produto Interno Bruto (PIB), pois seria um esforço tal que iria hipotecar o investimento público.

João Paulo Marques concorda que as contas públicas estejam “controladas e certas”, mas defende que esse trabalho seja feito em “equilíbrio” com o investimento público.

Carina Ferro entrou no debate, e, uma vez mais, com o pensamento no BE. Pela negativa.

As críticas às propostas dos bloquistas têm sido tantas pelos protagonistas do Política 5.0 que Carina Ferro disse, em tom de brincadeira, que o “BE tem quase um prémio de mérito pela quantidade de conteúdos negativos” que trouxe ao eleitorado. Ainda assim, a socialista não deixou de fazer o elogio público à abordagem ao mar que os bloquistas propõem no seu manifesto.

Criar uma “espécie de escola de pescas da Madeira” como defende o BE é algo que, do seu ponto de vista, merece ser “debatido com alguma seriedade”.

Fazendo uma leitura mais abrange dos diferentes manifestos que vão a votos a 22 de setembro, Carina Ferro deixou um reparo que é transversal a muitos partidos, sobretudo os de menor expressão. Inquieta a socialista saber como é que tantas medidas propostas podem ser concretizadas. “Dá a impressão que é lançar ideias ao alto na esperança de cativar o público menos informado”, mencionou.

Mas esse não é uma prática exclusiva dos pequenos. Dirigindo-se ao CDS, a socialista também não compreende como é que quer aumentar a piscicultura na Madeira sem ferir a paisagem marítima, ou como os produtos regionais terão prioridade sobre os demais no abastecimento dos serviços públicos ou ainda como será criado o parque de ciência e tecnologia quando já existe o ‘Brava Valley’.

Gonçalo Santos tinha a resposta na ponta da língua. “Eu tenho muita pena que a Carina [Ferro] não tivesse ido a nenhuma das 15 conferências que o CDS organizou com mais de 500 especialistas”, os quais alicerçam o programa do CDS. “E tenho pena também que o João Pedro, de alguma maneira, diga que os produtos regionais não têm qualidade para serem adquiridos”, disparou.

Até aqui o debate decorria descontraído. Mas depois desta declaração, o cenário mudou de figura, tornando-se mais tenso.

“Isso é demagogia barata. Não foi nada disso que eu disse”, respondeu João Pedro Vieira, visivelmente incomodado com o que ouvira.

Gonçalo Santos não respondeu e continuou discorrendo sobre um conjunto de propostas de serviços e empresas que o BE quer tornar públicos, para chegar à conclusão que “ou o Bloco abdica do programa ou o PS abdica do programa”.

João Pedro Vieira continha-se a aguardar pela sua vez, e quando ela chegou: “A questão é que o Gonçalo ganhou o prémio de demagogia do programa”.

“Propusemo-nos a discutir os temas com alguma seriedade. Eu lanço uma dúvida de como é que se concretiza a proposta e, em vez de esclarecer, a resposta do Gonçalo [Santos] é dizer coisas que eu não disse”.

“Eu acho que o Gonçalo está convencido que se repetir muitas vezes uma mentira que ela se torna verdade. E hoje veio novamente com aquela narrativa que é: não votem no PS porque o programa do Bloco é impossível de concretizar”, lembrando ao centrista que o PS vai a votos sozinho.

“Eu percebo que à direita o PSD já percebeu que não vai ter uma maioria absoluta e, provavelmente, estarão neste momento à procura de soluções governativas, e tudo indica que a única solução é o CDS. Agora, o que me espanta é ver o Gonçalo Santos fazer a mesma campanha que ainda hoje recebi no telemóvel, de um vídeo que anda a circular, a dizer: não votem no PS que vem aí a geringonça com a Catarina Martins”, disse.

E depois deixou ao centrista duas perguntas: “A primeira é: o CDS apoia os donos disto tudo?” E a segunda é se está mandatado para falar em nome do CDS e rejeitar qualquer coligação com outros partidos que não seja o PSD? “É que até hoje não ouviu nenhum dirigente do CDS recusar entendimentos com qualquer partido”.

Sem querer “fazer a defesa da honra”, Gonçalo Santos pediu contudo a palavra. “Quando fui convidado para este programa foi para falar em nome próprio, e não em nome do CDS”.

“Está esclarecido”, disse João Pedro Vieira, já sorridente.

“Além disso eu não tenho qualquer cargo no CDS. Sou um mero militante de base. Nem membro da comissão política sou. Ao contrário do João Pedro, que é secretário-geral do PS-M, que cumpre aqui uma cartilha, e não é esse o objetivo deste programa”, declarou.

O debate já ia tomar novo rumo, mas, entretanto, o tema do vídeo que alegadamente pede para os eleitores não votarem numa “geringonça” na Madeira voltou para cima da mesa, e João Pedro Vieira acrescentou: “A minha dúvida neste momento é se o vídeo foi realmente feito pelo PSD, porque só vejo o CDS preocupado com a geringonça”.

“Eu falo em nome próprio, chamo-me Gonçalo, não sou secretário-geral de partido nenhum, e se tu tens de cumprir uma cartilha o problema é teu”, devolveu o centrista.

“Já percebemos isso… E tens 44 anos, já percebemos isso”, complementou João Paulo Marques, tentando colocar água na fervura.

“Ainda estás contemplado para ser jovem agricultor”, brincou também Carina Ferro, fazendo baixar a tensão. E os ânimos serenaram.

Dentro do tema do debate de hoje – a Economia – houve ainda tempo para falar de emprego, da regularização dos precários, de criticar os Governos da República por não encararem o CINM como “um projeto nacional”, e para voltar novamente a falar dos 11 milhões de euros de benefícios fiscais que foram dados ao hospital privado da Madeira.

A possibilidade de ingovernabilidade na Madeira, face aos vários cenários apresentados pelas recentes sondagens, também foi objeto de preocupação no programa.

Assim como a introdução de uma taxa regional turística - tema trazido por Rubina Berardo -, que levou ainda a novas posições discordantes, com alguns intervenientes a pedirem cautela, equilíbrio, discriminação positiva para o norte e estudos prévios antes de a implementar. Gonçalo Santos só a aceita, se a conjuntura turística for favorável.

O programa regressa amanhã a partir das 17h00, na 88.8 JM FM.