Associações Monte de Amigos e Madeira Emergência enviam roupas para campo de refugiados na Grécia

A Monte de Amigos, instituição particular de solidariedade social, e a Madeira Emergência, associação para a promoção da emergência médica, recolheram vestuário, cobertores e mantas para enviar para o campo de refugiados de Moria, na ilha grega de Lesbos.

Disso mesmo deu conta a Monte de Amigos, numa publicação na sua página de Facebook.

Eis a mensagem, que inclui o tocante relato do presidente da Madeira Emergência, Gonçalo Félix, aquando da sua missão como voluntário no campo de refugiados de Moria, que o JM noticiou:

"Existem homens grandes.

Quando há uns meses atrás o Gonçalo Félix, presidente da Madeira Emergência, acabado de chegar de uma missão como voluntário do campo de refugiados de Moria, na ilha grega de Lesbos, me contou que eram precisas roupas, pois em Moria ninguém consegue vestir uma peça de vestuário mais que uma vez, porque ficam molhadas e não secam! Que existem contentores onde as pessoas vão buscar as roupas para serem usadas unicamente uma vez e esses contentores não podem ficar vazios, a Monte de Amigos juntou-se logo recolhendo vestuário, cobertores, mantas, para enviar para Moria

Depois de muitos meses a tentar conseguir-se o transporte até à Grécia, na semana passada veio a boa notícia. As roupas vão embarcar.

Hoje procedemos ao transporte dos sacos e caixas que estavam na Monte de Amigos e na Madeira Emergência, até aos armazéns da Porto Santo Line.

Um carro cheio. Para o que eles precisam no campo de refugiados não é muito.

Mas é de coração e alma cheia que o fazemos. Porque podemos sempre ir mais além e darmos um pouco de nós.

Agradecemos a todos os que colaboraram. Às pessoas que nos deram roupas. À Porto Santo Line. À Câmara Municipal do Funchal.

E claro, ao Gonçalo Félix um Enorme Obrigado!

Deixo aqui transcrito um texto do Gonçalo, escrito quando deixou o campo de refugiados de Moria.

"...Terminada a minha missão no campo de refugiados de Moria na Grécia na ilha de Lesbos...

Gostaria antes de mais de agradecer a todos os que ajudaram a esta missão ser possível com as vossas ajudas e vontades, assim como todos os que deram força e acompanharam esta situação de perto com o sentimento de alertar e de fazer algo.

Foi uma experiencia fantastica, um mundo à parte do que estamos habituados, uma realidade difícil e triste de vivenciar e ouvir as suas histórias. Conheci pessoas fantásticas desde os voluntários de vários países e que comigo trabalharam com a mesma vontade e empenho que eu, todos pela mesma causa, saber que existem tantos no mundo com vontade de mudar e de lá estar sem esperar nada em troca, apenas para ajudar e mudar um pouco a vida daquelas pessoas .

Aprendi muito com todos, pessoas de várias áreas e realidades mas ali éramos todos uma equipa, Fiz um pouco de tudo, muitas delas sempre na redline e que nunca tinha feito, mas adorei cada segundo.

Conheci pessoas como eu com sonhos, esperanças e ideais, pessoas do outro lado do mundo que hoje são refugiadas porque sim, porque o seu país está em guerra e não estão em segurança, porque são oprimidas pelos regimes de ditadores no seu país e porque querem mais para elas seja na educação ou de liberdade, outros porque tiveram mesmo de fugir de tantas coisas que nem imaginamos.

Os que estavam mais próximos de mim eram os que trabalhavam conosco dia a dia os
Tradutores e estavam todos os dias lado a lado e ai pude saber as suas histórias e perceber um pouco mais, perceber que são exactamente como nos, apenas nasceram do outro lado do mundo e sem culpa nehuma tiveram de passar por todos aqueles horrores, pergunto e se fôssemos nos a nascer noutro país com aquelas situações??

Nós somos exactamente os mesmos seres humanos pensantes e com sonhos seja aqui ou no oriente, percebi que no Afeganistão, Paquistão, Síria e Iraque tem Pessoas fantásticas cultas e como eu ditas normais, que gostam de coisas como eu e são diferentes daquele Estereótipo que estamos habituados a ouvir nos media, sobre metade dessas pessoas do médio oriente dos Terroristas e seitas e tantas outras coisas, esqueçam nada tem a ver.

Metade são pessoas de família trabalhadoras com os seus filhos e mulheres e que fugiram para poderem ter paz e poderem apenas viver ..
As burocracias da UN e do governo grego são

Morosas e não conseguem dar encaminhamento a tantas pessoas que lá estão, muitas delas ja realizaram duas e três entrevistas para obterem o carimbo de saída e fica na mesma, voltam a marcar outra reunião sem saberem quando e se vai acontecer outras estão marcadas para 2021 acreditam ????

As condições no campo são duras, a nível de lixo higiene e espaço, não tem condições para aguentar lá pessoas uma semana quanto mais meses a fio. As pessoas estão em Ebulição e psicologicamente alteradas já não

Aguentam aquilo, não conseguem dormir, as filas para o comer e um Inferno e existe sempre violência, tomar banho e para esquecer,toda gente anda em Stress.
Está sobrelotado, tem muitos menores que vieram sozinhos e Tentam o suicidio todas as semana e as pessoas são esquecidas, por vezes mal tratadas por quem realmente devia fazer algo.

As organizações que lá estão e são imensas das mais variadas areas, fazem um trabalho fora do

Normal e meritório de um Nobel da Paz, sem elas acho que estás pessoas não tinham qualquer hipóteses de sobreviverem esqueçam....

Durante o meu tempo no Campo na clínica da Kitrinos única não governamental no campo que faz cuidados médicos e socorro a todos, tive a oportunidade de ver e estar em pelo menos 3 chegadas ao campo dos novos refugiados que tinham sido apanhados no mar.

Pessoas que tinham vindo nos botes e estive na clínica do Governo grego a fazer a triagem da sarna com um médico nosso, porque dávamos apoio a eles e era obrigatória nesta fase de chegada devido ao grande número de casos que tem havido lá Dentro.

Posso dizer-vos que é muito emocionante ver famílias que passaram por tanto a chegarem lá e mal sabem o que lhes espera.

Geralmente via os adultos felizes nesta fase por terem conseguido e por estarem livres e na Europa mas as crianças via as assustadas e sem saberem quem somos e o que os espera, muitas deles ainda molhados ...

É duro presenciar a isto Tudo e por algumas semanas sentir com eles as mesmas coisas, sentir que ajudamos como pudemos e com os recursos que temos, assim como milhares de voluntários que lá vão, mas quando nos vamos embora e nos despedimos de todos, sentimos que tudo lá fica igual e nada vai mudar, e eles vão continuar ali no mesmo local nas mesmas condições e olham para nós como “ já vais embora e nos teremos de continuar aqui” sentir que temos a Liberdade de entrar e sair mas como se um prisão se tratasse eles têm de permanecer ali naquelas condições a partilhar um contentor com mais 12 família que conheceram ali, sem saberem quando vai mudar ou acabar por mais Meses e anos .

Estão presos à ilha, Atenção que todos o que estão tanto no campo nas Isobox como nas tendas no olive grove podem sair e andar pela ilha a vontade e ir à cidade etc,apenas não tem permissão para fazer mais nada trabalhar ou
Viajar da ilha.

Nós não somos diferentes por sermos ocidentais e Europeus, não somos melhores porque nada fizemos para ganharmos Isso apenas nascemos aqui entendam isso.

Muito mais poderia descrever o que em 14 dias vi e fiz os rostos que trago comigo gravados e que nunca vou esquecer peço que nada seja em vão e que o Mundo possa se resignar e alertar a todos o que se passa nestes locais, fazendo pressão e mediatismo para que a vida destas pessoas mudem e para que as fronteiras se abram de forma controlada para evitar tudo isto e noutros tantos locais onde existem campos de refugiados com milhares delés.. Nós não vos esquecemos e sei que um dia e tenho esperança que tudo vai mudar.

Até breve.."