Médicos falam em greve de 70% na Madeira

Lusa

O primeiro dia de greve nacional dos médicos teve uma adesão próxima dos 85% nos cuidados de saúde primários e de quase 95% nos blocos operatórios, tendo provocado paralisações por todo o país e os habituais “transtornos” aos utentes.

Nas ilhas, a greve dos médicos obrigou ao cancelamento de consultas no Hospital de Ponta Delgada, o maior dos Açores, enquanto na Madeira a adesão rondou os 70%, chegando aos 100% no bloco operatório do Hospital Central do Funchal, a funcionar apenas com os serviços mínimos.

O balanço foi feito hoje à tarde, numa conferência de imprensa convocada pela Federação Nacional dos Médicos (FNAM) e pelo Sindicato Independente dos Médicos (SIM), segundo os quais só estiveram disponíveis os blocos de oncologia e os serviços de urgência.

Logo num primeiro balanço feito pela manhã, a perspetiva era promissora relativamente aos objetivos dos sindicatos que convocaram a greve, com os blocos operatórios dos principais hospitais do país encerrados e as consultas externas canceladas.

Mais tarde, por volta das 13:00, o cenário confirmava-se com a adesão a nível nacional a rondar os 90% nos blocos operatórios e a chegar aos 100% em alguns locais, com os representantes sindicais a afirmarem que “centenas de médicos asseguram serviços mínimos como se um fim de semana se tratasse”.

Nas consultas externas hospitalares a adesão era de 75%, de acordo com as mesmas fontes, enquanto nos cuidados primários chegava aos 85%.

Durante a tarde, numa manifestação em Lisboa frente ao Ministério da Saúde, os médicos em protesto adaptaram a música italiana “Bella Ciao” para cantar “Berto chau, Berto chau, Berto chau, chau, chau” e que “Adalberto não conhece/Não conhece o SNS”. Uma iniciativa que contou com o apoio do Bloco de Esquerda e do Partido Comunista Português.

Para o presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar, o momento é de substituir o ministro da Saúde, Adalberto Campos Fernandes, por um ministro que defenda o Serviço Nacional de Saúde (SNS).

O Bloco de Esquerda aproveitou para requerer uma audição urgente do ministro na comissão parlamentar respetiva com o objetivo de questionar Adalberto Campos Fernandes sobre as negociações com as várias profissões do setor e a falta de investimento no SNS.

O secretário-geral da Confederação-geral dos Trabalhadores Portugueses (CGTP), Arménio Carlos, defendeu que esta é uma greve que serve para pedir medidas de fundo por um melhor SNS, além de ser de defesa dos direitos dos profissionais de saúde.

Ainda dentro dos organismos representativos dos profissionais de saúde, o bastonário da Ordem dos Médicos, Miguel Guimarães, que também participou na paralisação, apontou que a greve é “apenas um grito de alerta e um primeiro passo” na demonstração de descontentamento por parte dos vários profissionais.

Entre as estruturas sindicais que convocaram o protesto, as críticas ao ministro da Saúde foram mais fortes, com o presidente da Federação Nacional dos Médicos (FNAM) a acusar o governante de “cinismo político puro” depois de Adalberto Campos Fernandes ter dito que compreendia as reivindicações dos médicos, mas alertado que não se consegue resolver tudo de uma vez.

Por seu lado, o secretário-geral do Sindicato Independente dos Médicos (SIM) acusou o ministro da Saúde de “fugir da realidade” e das negociações com os sindicatos e pediu-lhe que “não seja Centeno”, referindo-se ao ministro das Finanças, Mário Centeno.

Numa ronda pelo país, é possível constatar a realidade que os números demonstram, começando pelo hospital de Vila Real, no norte do país, onde alguns utentes se queixaram de deslocações propositadas, de despesas “em vão” e faltas ao trabalho, na sequência do cancelamento de consultas.

No Porto, Margarida Ribeiro, com 72 anos, foi uma das utentes a ficar sem a consulta marcada, no caso há um ano, e foi de lágrimas nos olhos que reclamou que os médicos tenham “mais respeito pelas pessoas”.

Mais a sul, os blocos operatórios dos hospitais de Faro e Portimão paralisaram, apenas com serviços mínimos para as cirurgias de urgência ou oncológicas.

No Alentejo houve também cirurgias e consultas adiadas, tanto em hospitais como nos centros de saúde, registando-se uma adesão média de 86%, segundo fonte sindical.

De acordo com a mesma fonte, a adesão à paralisação nos hospitais e centros de saúde do Alentejo rondou os 92% no litoral alentejano, 87% no distrito de Portalegre, 83% no distrito de Évora e nos 81% no distrito de Beja.