Serviço de Saúde na Região Autónoma da Madeira

José Gil Rodrigues Moniz

Excelentíssimos Senhores

Penso que este é um momento em que perante tudo o que tem sido dito, e escrito, sobre o sistema de saúde, na Região, é oportuno que alguém reme contra a maré, isto é; contra o dizer mal, só por dizer, partilhando algo que lhe aconteceu e que contradiz o clima de suspeição e de maldizer que, por cá, vai ganhando cada vez mais adeptos. O que vou partilhar, aconteceu comigo, numa sexta-feira em Fevereiro de 2015. Como consequência do resultado dos exames complementares realizados, a pedido do médico que consultei, foi-me recomendado que, de acordo com o que o exame revelava, era aconselhável que fosse internado no Hospital, uma vez que o problema detetado não poderia ser tratado nem em casa, nem no consultório. Por ser um fim-de-semana, (Carnaval) que poderia ser de grande afluência às urgências, o médico aconselhou-me a que fosse nesse mesmo dia. Eram 20h00, e depois de ele perguntar para o Hospital quem estava de serviço, disse que se não quisesse ir nesse dia, teria de garantir-lhe que na manhã seguinte, iria às urgências para o devido internamento. Apesar de ser o dia de aniversário da minha mulher, e ela estava presente junto com um dos nossos filhos, nem lhes perguntei o que deveria fazer: disse ao médico que se aquela era a sua opinião, então iria já nesse dia, porque assim antecipava um dia. Às 22h00 entrei nas urgências e depois de uma consulta prévia, esperei pelo especialista em Neurocirurgia que delicadamente me atendeu e à meia-noite já estava sendo medicado. Essa primeira noite foi passada nas urgências, porque no serviço correspondente à minha situação, não havia vaga e isso deu-me já uma ideia do que significava passar uma noite nas urgências, tantos eram os doentes nas situações mais diversas, porque pouco ou nada consegui descansar. No sábado seguinte, à tarde, uma das Enfermeiras de serviço veio informar-me que me dariam uma sopa e depois subiria para o 79 andar. Como no serviço de Neurocirurgia não havia vaga, fui colocado no serviço da Neurologia, onde fui muito bem tratado antes e depois da cirurgia, até ter alta médica em 5 de Março de 2015. Devido a sequelas pós-operatórias fui para casa com ligeiro desequilíbrio e num dia à noite, dei uma queda facial, bati com a cabeça no chão e saiu sangue pelo nariz, não ficando qualquer outra marca visível. Passado um dia, tive sintomas febris, fui às urgências e por recomendação do especialista, fiz uma TAC que não revelou resultados que justificassem o internamento.

Como o estado febril se tivesse agravado, regressei, posteriormente, às urgências e então deu-se o internamento para reparar qualquer dano provocado pela queda. Este internamento, e os seguintes, já foi no serviço de Neurocirurgia. Foi necessário ser intervencionado para aquilatar da situação mas, depois da mesma, fiquei com a perna esquerda inchada e com pouca sensibilidade. Neste espaço de tempo apanhei uma bactéria "hospitalar" que provocou novo internamento e posterior cirurgia. Fui a uma consulta de fisioterapia e foi recomendado que fizesse recuperação durante algum tempo. A fisioterapia resolveu o problema da perna mas o couro cabeludo não fechava, porque todos os dias drenava qualquer produto que, apesar de estar fazendo antibiótico, não passava. Foram várias as situações e os internamentos com as consequentes intervenções que culminaram com a decisão, depois de ter feito uma Ressonância em Abril de 2016, da Equipa médica de voltar a abrir para retirar a parte frontal do crânio que estivesse estragada e requisitar uma prótese. Após quase 9 meses, em Dezembro de 2016, a prótese foi colocada e fui novamente infetado com nova bactéria que originou um internamento de 40 dias, fazendo antibiótico. Entretanto fui submetido a pequenas cirurgias para tentar que o couro cabeludo cicatrizasse, mas nada resultou. O médico que me tem acompanhado pediu a opinião da equipa da Cirurgia Plástica que, concluiu que demorou muito tempo entre a retirada do osso e a colocação da prótese e esse fato provocou uma atrofia do couro cabeludo. Seguindo a opinião da Plástica, em Agosto de 2017 foi retirada a prótese e em Outubro último voltei a ser internado para recolocá-la. Até agora está tudo bem e só tenho a agradecer a Deus e a todos os que trabalharam comigo nas várias situações em que tive necessidade de ir ao Hospital. Em resumo, foram 9 intervenções com anestesia geral e 3 pequenas cirurgias com anestesia local, incluindo as 3 bactérias com que fui infetado. Durante todo este tempo, nunca tive razões de queixa do serviço e muito menos das pessoas. Todos foram simpáticos, delicados, atenciosos, educados e sobretudo dedicados, apesar das dificuldades e das carências próprias de um serviço quase sempre "com lotação" esgotada. É importante referir que faziam, e fazem, tudo para que nada falte ao doente Durante este período, deu para perceber o que representa para o doente estar internado tanto tempo, e tantas vezes, porque além do incómodo para si próprio e para a família, e também para o pessoal técnico, auxiliar e administrativo que, por vezes, podem sentir que não estão dando a resposta adequada e desejada por todos.

Apercebi-me também das dificuldades existentes no serviço para darem resposta a todas as situações porque, apesar das carências que eram notórias, o pessoal fazia de tudo para que nada faltasse ao doente e evitava que ele se apercebesse de tal.

Quando ouço ou leio comentários sobre as faltas e falhas, só lamento que isso venha para o exterior, porque lança a desconfiança e o descrédito sobre os que dão tudo o que podem para minimizar o sofrimento do doente.

Todos os dias agradecemos a Deus por tudo o que recebemos durante estes, quase, 3 anos de atendimento no Hospital, sem ouvir ou ver qualquer sinal de impaciência por parte do pessoal que lá trabalha, dando o seu melhor em favor daqueles que estão internados ou que por lá passam.

Não posso esquecer o carinho e a disponibilidade com que fui atendido no Centro de Saúde de Santo António, sempre que me deslocava para fazer tratamento.

O nosso multo obrigado a todos os que, dia a dia, dão o que podem, evitando trazer para o trabalho, ou que nos apercebamos, os seus problemas pessoais ou familiares. Só lamento que aqueles que "apenas" dizem mal, não tenham, ao menos, a curiosidade de procurar saber quanto ganha, mensalmente, um enfermeiro.

Se isto fosse do conhecimento público e, principalmente, se os que criticam tivessem um tempo de internamento em que lhes fosse dada a oportunidade de observar o que um profissional de enfermagem tem de fazer, e em que condições, o fazem talvez a sua opinião seria outra.

Agradecendo ao JM a disponibilidade e o "espaço" para o que julgarem ser publicável, subscrevo-me atenciosamente