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Perdidos e Achados: Um paraíso de orquídeas raras levado pelas chamas

Data de publicação
07 Junho 2026
12:52

Nasceu do sonho de uma família austríaca apaixonada por flores, acolheu milhares de espécies raras e conquistou visitantes de todo o mundo. Em agosto de 2016, os incêndios destruíram quase tudo. Dez anos depois, a memória continua viva.

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No topo do Bom Sucesso, com vista sobre a baía do Funchal, poucos sinais restam do lugar onde floresceram mais de 50 mil orquídeas e se perdeu, numa única tarde de agosto, o trabalho de quatro gerações.

Durante mais de duas décadas, aquele espaço foi conhecido como Jardim Orquídea da Fundação Josef Pregetter. Para milhares de visitantes, era um pequeno paraíso tropical suspenso sobre a cidade. Para a família que o criou, era o projeto de uma vida inteira.

A sua casa, que muitos diziam estar assombrada, está hoje à venda por 1,8 milhões de euros.

Mas recuemos no tempo desta história que começou a brotar longe da Madeira. A família Pregetter dedicava-se à horticultura na Áustria desde o início do século XX. Produzia sobretudo cíclames, mas acabaria por se especializar no universo das orquídeas. Quando Josef Pregetter e a esposa, Marianne, decidiram procurar um local onde pudessem concretizar um projeto mais ambicioso, encontraram na Madeira as condições ideais.

”É possível cultivar aqui cerca de 80% de todas as espécies de orquídeas existentes, algo que não se consegue em mais nenhum lugar da Europa”, recorda Verena Pregetter, filha do fundador, ao JM.

Em 1991, a família mudou-se para a ilha, trazendo consigo não apenas as bagagens habituais, como também estufas, milhares de plantas e até o laboratório que mantinha na Áustria.

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O terreno escolhido, no Bom Sucesso, estava praticamente abandonado. Havia uma casa antiga que poucos queriam habitar. Corria a história de que era uma casa assombrada.

A lenda acabaria por ganhar lugar na memória do jardim. Josef Pregetter gostava de a contar aos visitantes e a própria família acabaria por associar alguns episódios estranhos à casa. A coincidência de vários acontecimentos difíceis — incluindo uma doença grave de Marianne, que viria a ficar numa cadeira de rodas — ajudou a alimentar o mistério.

”E, acredite ou não, por vezes a senhora [o fantasma] aparecia na sala de estar”, recorda Verena.

Por mais arrepiante que pudesse parecer, nada disso afastou os Pregetter do seu objetivo. Enquanto o jardim crescia lentamente, Josef Pregetter passava horas no laboratório. Ali desenvolvia novos híbridos de Paphiopedilum, um dos géneros mais valorizados entre colecionadores de orquídeas.

Floresta tropical sobre a cidade

O sonho do fundador era simples de explicar, mas complexo de concretizar: queria que os visitantes vissem as orquídeas como elas existem na natureza.

Em vez de vasos alinhados, o jardim procurava recriar ambientes tropicais. As orquídeas epífitas cresciam sobre árvores e troncos. Outras desenvolviam-se junto ao solo ou entre rochas. Bromélias, tillandsias, fetos e inúmeras plantas exóticas completavam um cenário que muitos descreviam como uma pequena selva.

”O sonho do meu pai era que os visitantes sentissem que estavam a caminhar numa floresta tropical da Malásia ou da América do Sul”.

Laboratório à vista de todos

Uma das caraterísticas mais invulgares do Jardim Orquídea no Bom Sucesso encontrava-se logo à entrada. Através de uma janela, os visitantes podiam observar o laboratório onde eram propagadas novas plantas. Em frascos esterilizados, sob iluminação artificial, cresciam pequenas orquídeas ainda longe da sua forma final.

O objetivo era mostrar o lado invisível daquele mundo, tudo isto ‘adubado’ pelo encanto de que “algumas espécies levaram mais de 15 anos até produzirem a primeira flor”. “Queríamos que as pessoas percebessem quanto tempo e trabalho existe por detrás de uma orquídea”, explica Verena.

Apesar do reconhecimento internacional capaz de impressionar qualquer orquidófilo, o produtor recusou sempre registar os híbridos que criava, pois “acreditava que as plantas pertenciam a toda a gente e não deviam transformar-se em marcas sujeitas a royalties”.

“Foi o pior dia das nossas vidas”

Naqueles infernais dias de agosto de 2016 de que qualquer madeirense tem memória, o fogo chegou ao Bom Sucesso. Verena não tem dúvidas quando recorda “o pior dia” da sua vida, o que levou o jardim sempre por si visto como se tivesse saído “de um conto de fadas”.

Em menos de meia hora, desapareceram décadas de trabalho. Ardeu o laboratório, ardeu a coleção botânica. Perderam-se híbridos criados por Josef Pregetter, plantas herdadas do avô de Verena, espécies raras e exemplares com quase um século de existência.

Leia na íntegra a rubrica ‘Perdidos e Achados’ deste domingo na edição impressa do JM.

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